| Café do Vento | ||
A vitrine da minha introspecção. de mim apenas eu poeta quis-me Deus assim sem plantar nem colher nem partir nem ficar tecendo a sombra dessas palavras no silêncio sem dor apenas poeta eco nessa noite ampla entre os fios da solidão e das aves empoleiradas e quietas... posted by Unamuno" e-mail Não há noite nessa noite nem dia nesse dia apenas passa na porta fechada, em chuva de silêncio, incólume, a minha alma... posted by Unamuno" e-mail aqui eu só fiel a mim degusto minha mesmice saboreio meu nada Um dia com Deus, outros sem caminho assim na pouca alma dos pés. são minhas mãos nuas meu coração calado apalpo minhas feridas com uma paciência infinita Não floreio nesse meu desapego nessa pouca tinta que ainda resiste sou poeta ainda vivo, perdoai... posted by Unamuno" e-mail eu quando eu sou eu menos eu ainda sobro na minha insolvência peculiar sobro no meu dia minha viagem é mais completa assim na roleta do meu sangue a fresca sombra da minha alma a dor de minha luta quando sou e não sou mais eu menos eu a minha derrota é minha vitória na palma do céu a sinfonia, o traço de pedra da cidade urgente, sem palco, sem tédio, sem drama apenas o vento que leva e traz que esquece e me lembra resfria acende cigarro, palha, destino, a agitação feroz do dia, sou apenas o passageiro do futuro, amanhã, a vida.... posted by Unamuno" e-mail Sozinho No silêncio Só a voz que canta Silenciosamente. Canta na minha imaginação, voz sem voz, mas tanta alma, tanta emoção. Posso com dois cliques ouvi-la, o som flutuando no ar. Mas a quero no silêncio da minha imaginação Palpitando, aí o encanto, a sua voz, ou o pressentimento de sua voz, A invadir-me completamente, não só a voz agora, Mas a sua presença quase física, A sua imagem, o olhar brilhando, o sorriso, tudo Nesse particular e imponderável show. Assim a escuto sozinho Como sou, Neste mais absoluto e completo silêncio. posted by Unamuno" e-mail Não na canção Não é o sol que se põe O tempo que passa O dia que morre Os que se foram Partiram deste Ou qualquer mundo Não é a chuva A viagem insone da noites A gosma da ilusão A baba da derrota A meia prisão A crucificação óssea Carnal Cotidiana Não é Nada é Nesse corte axial da realidade O amor sufocado Sem grito Sem senha Sem sanha Sem manhã Sem E sequer existe o inimigo Sequer existe a mentira Seque existe Ela Tão bela Nua Doce Nesse mundo emborcado e sonolento Sem a sinfonia de outubro Sem dueto Nem canção de amor Nada é No horizonte enfermo A dor consubstanciada A revolta selada A terra arada A alma arada A curva do tempo O amor sufocado Sem grito Sem sanha Sem senha Sem manhã Sem posted by Unamuno" e-mail Sábado junto as palavras em um entendimento o sol não me lembra a lua me esquece o que é dia o que é noite o que é essa imprecisão do que não tenho do que não posso ter desse amor que bebo no meu sangue bebo na minha vida bebo na chuva bebo nos recônditos poços da minha alma da dor que não dói da dor que ama no vôo dessa canção nesse sábado o pingo do destino o tempo de nosso tempo... posted by Unamuno" e-mail Um dia o lacre da dor rompido a alma quieta anestesiada e mergulho tenho a vida no sol a esperança caminha no vento, os pés no frio do asfalto, o coração que bate, os olhos bem abertos, a pele, o sangue, a minha rude mansidão, nesse fio do silêncio do que sou do que quase sou na espera, à porta do rotundo tempo, que um dia será meu, um dia sera meu dia... posted by Unamuno" e-mail Não sou eu No leite desse ar, Essa ambivalëncia toda De quem é e não é e não será E será história de ventos Ponteando o nada Dizendo eu não sou Não, eu não sou Eu não devia começar Mas começo Amanheço com as mãos o dia sofrido Ergo a voz, calo o grito, Meus olhos fuzilam a luz Meu queixo imerso na areia Na face o que sobrou O que arranhou a voz Deixou o cinza na alma As minhas pegadas úmidas e soberanas no caminho Não, eu não vou chorar Não é meu esse grito Não é minha essa dor Que transforma o ar Bolha de fogo e fel Que se levanta na barra da manhã, Desenhando a comiseração, Nessa facilidade de lágrimas enganadoras No molho da chuva fria A dizer, eu digo não, não sou eu E só tenho essa voz engasgada Que pinga da terra E vai mais além Esse não sou eu No tecido frio e escuro desse mundo O galope da dor invadindo os quintais Nesse indiferença oleosa quase humana Quem se importa com o que seja O que sou A tessitura de minha pele Ou com a orelha do meu pé Então que essa festa festeje o seu arroz Que os dromedários durmam de casacas. Que haja uma casa, uma cidade, um céu privado Com uma lua e um sol pintados na janela Onde as vezes chove Às vezes neva, névoa Não, não sou eu Nunca fui eu Com certeza era o vento, A palmeira se agitando na escuridão, Decerto um reflexo Que cruzou a monotonia do dia E não era eu Que eu sou mais canino Os pés rosnando na fuligem do chão de terra E a alma vadiando no coração do céu Absolutamente livre Sem as amarras do ventos Sem o peso das sombras Sem os olhos escuros e doloridos mirando a indirença do espelho... E esse sou eu Cão no chão Cão no sonho Cão sempre... posted by Unamuno" e-mail Despedida Do que sou nada sou e minha face pinga sobre as pedras do dia Nesse encrave de imenso sol, sua doçura passeia de rosa e branco e nem preciso repetir no silêncio das palavras que te amo. Você sabe eu sei nesse abraço de nossas palavras doloridas Doloridas de uma dor que não dói apenas lembra, que na nossa fuga, esquecemos a fogueira acesa, mudas estrelas como testemunhas... E lembra que o sol voltará ao seu sorriso e eu voltarei ao meu Posto de Gasolina. A vida continua.... posted by Unamuno" e-mail Jardim Compro da tarde A poesia, Escrevo esse meu verso quieto Para que fiques um pouco comigo É que a tarde ainda está úmida, Depois de um fria e nevoenta manhã, Mas agora há luminosidade, o discreto azul do céu. Enquanto, sem rumo, me movo dentro da lógica estabelecida Deslizo no asfalto molhado sem medo, Mesmo com tanta água não há magoa E descubro no conflito silencioso da minha vida Que não há solução para o amor que se arranchou em minha alma. Não há remédio. Não há. O destino que não se equivoque Sou eu quem cuida dessas flores imaginárias, no vão desse impossível jardim Com a mesma paciência de jardineiro que não se fatiga do seu ofício E essa é a minha vida, esse o meu viver... posted by Unamuno" e-mail manhã quero-te nessa manhã inglória vazia quero-te antes que minha sombra se desfaça e leve minha vida no vento qualquer quero-te tua boca como uma romã a curva mínima do teu seio quero-te quando sei que o meu amor morre como morrem meus dedos cansados nessa manhã espacial sem glória vazia. posted by Unamuno" e-mail Tempo Tenho o tempo, mas o tempo também me tem. Na fluidez dessa indecisão, entre os muros oleosos, observando a minha indiferença em branca fuga. Que voem os abutres e rondem as feras nessa paisagem erma e silenciosa. Não importa. Mesmo que o tempo se vá e tudo em volta se desfaça, e tudo se dissolva em orgasmo e larva, restará um prato vazio, a saciar minha boca vazia, meu coração vazio. posted by Unamuno" e-mail Meu Silêncio Vai, meu silêncio, Fala por mim. Diz o que penso, diz o que sinto, Substitui a minha boca muda, O meu coração calado, E leva os meus pensamentos, minha alma, O apelo de minhas mãos, o clarão dos meus sonhos. Vai, meu silêncio, encontre-a, toque-a, Cresça dentro do seu quarto, ocupe todas as metáforas do ar, Respire junto com ela, Mas não mexa em seus sonhos, Não, não mexa em seus sonhos, Apenas envolva-a com meus pensamentos, esconda-os dentro de sua alma. Vai, meu silêncio, meu camarada, leve-me lá...Esquecer não, não permita.... posted by Unamuno" e-mail Do meu mundo Era o meu mundo Um mundo pequeno, Construído pelas minhas mãos vazias. Não existia lá muita coisa, A lua era um borrão que acendi no céu, O sol não tinha hora para acordar, Poucas plantas, árvores sem seiva, Pouca ou quase nenhuma flor. Era meu mundo, intocável, impermeável a realidade, a minha fuga Ali ninguém entrava sem meu consentimento, Nada era possível sem o selo da minha vontade. Um dia ela apareceu. Caminhou descalça pelo meu mundo, ágil e leve, Depois sentou-se no chão, abriu um vasto e iluminado sorriso e achou tudo maravilhoso. Dançou, cantou, achou bela uma pequena flor e a prendeu no cabelo. Havia o seu perfume no ar, as pegadas na areia., o seu carinho, a doçura. A sua presença fazia fluir a emoção e tudo se renovava Ela se tornou uma certeza maior que o sol no meu mundo. Muito maior. De repente, os meus versos abandonaram o vazio e voaram em sua direção. Meu Deus, ela é minha, eu pensei. Esqueci-me que havia um mundo lá fora. Que havia um tempo e seu relógio inexorável. Que havia os homens de preto, leis, convenções. Esqueci-me. E a amei com toda força da minha alma, de cada fibra da minha alma. Não se ama um sonho assim. Um homem feito não chora por um sonho. Mas sei que nessa impermanência do meu dia, Deste meu mundo que agora é dela, no fim dessa viagem, Eu conjugo a minha paz, a nossa paz, a nossa infinita paz Que Deus a proteja, meu amor!!! posted by Unamuno" e-mail Fim Vai assim Como se o fim dos tempos Fosse agora. Os Sinos não repicam Não há choro nem ranger de dentes Gritos ou tumulto Ninguém sabe Só o meu peito vazio Minha alma que ressoa como o túmulo de todos os mortos. Ninguém sabe Ninguém ler o meu olhar coagulado sobre a paisagem vazia Nem repara no cão feroz, ensandecido, que não sabe se morde ou pula no precipício. Não há dor nem revolta Ninguém sangra lentamente sobre a grama da praça da Matriz Ferido pelo cutelo silencioso do destino. Minha alma também está em pleno silêncio, Mas a batalha é surda e percorre todos os extremos permitidos a um solitário humano E mesmo o imenso bombardeio é abafado pelo ruído da rua. Um pequeno palco humano na trepidação infinita, Sob a semi-escuridão Resta o ator solitário mirando a platéia indiferente. Minha consciência não sabe julgar-me, Minha alma está vazia, Não posso mais restaurar os muros derrubados. Não posso mercadejar ilusão Nem construir imensos castelos, meras abstrações da fantasia Nem enganar o meu olho, acuar os nervos infeccionados. Esperarei o fim dos tempos De pé e pronto, Depois, tudo consumado, restará a minha perplexidade em algum golfo cósmico. Ou serei nada De nada Um risco quântico... posted by Unamuno" e-mail Sem Vai, minha dor, com a força do teu aço, De lenhador rachando o galho seco, Racha minha alma... Essa minha alma que rosna, alma de cão fiel De cão sem dono, cão sem lua, de cão impassível, Cruelmente impassível, Furiosamente impassível. Vai, minha dor infatigável, Soberana muda a vasculhar os porões do meu destino, Apresenta-me teu punhal, Crava esse punhal Até que os olhos de cão da minha alma desistam de sonhar, Até que essa espectral fantasia morra sonora e fundamente E morra completamente como morrem os vermes esquecidos no fundo da terra, Essa mesma terra que implacavelmente recolherá todo este imensurável drama humano. Vai, minha dor, algoz e companheira, Nessa noite, com seus silêncios de tantos pântanos, onde você, minha deliciosa ninfa, corre nua, no fundo acuado do meu olho, voando por essas paredes áridas, você que roubaram de mim tão violentamente, nessa ingratidão cósmica, implacável injustiça estabelecida contra a serenidade de minha alma. posted by Unamuno" e-mail Testamento Do que fui só Essa sombra espectral Pelo caminho. Uma nesga de lua, Um pingo de sol Na acanhada e poeirenta estrada. Sem meu violão, Sem minha voz que pudesse cantar, Acompanhando o eco da festa que não fui, Não voei, Não massageei as costas da moça dourada, Não pulei de pára-quedas em uma queda livre sobre o silencioso e infinito azul Não fui além, Não roubei, não matei, não conspurquei, Não patinei no gelo, não fui a ópera, ao Maracanã, nem a Paris Não prestei atenção no vizinho, nem nos inimigos Não gastei bom dia à toa, Nem aprendi fazer um feijão decente e um arroz sem queimar. Não entrarei nos anais da história, Não serei lembrado Não serei Mas saiba, meu amor, que fui o melhor ponta-direita da rua Antenor Navarro, Um exímio caçador de lagartixas E enfrentei em briga de rua o valente Nego Lambu e o abominável Castanha... Parece pouco, meu amor Mas não importa. O que importa é que estive aqui, no planeta azul E conheci você... Mesmo que de passagem De leve, Você esteve no meu caminho... posted by Unamuno" e-mail Você, onde está? Está claro e escuro Mas não é nada, Não é dia, Não é noite, Não é tempo, Só o bocejo cruel, Cósmico e cruel, Ou só cósmico Devoro a minha língua Devoro-a Nesta ingente fricção do amor Fricção de corpos, Fricção de nervos, Esse eterno cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar Onde está você, eu pergunto Onde está? Por que nunca veio? Por que nunca morou na minha rua? Por que não esteve ao meu lado enquanto eu navegava e o mar não estava calmo? Que fiz eu a você? E quando? E eu procuro. Nem mais sei como é a sua face. Existe uma explicação de por que você nunca apareceu na minha vida? Onde está você? Onde? Devo cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar Ou devo voar sem asas Para encontrá-la?? Não é essa introspecção, Não é essa canção que não toca, Esse dia que não chega, Nem essas araras invisíveis rodando o meu humor, Não é nada, É que chegou seu tempo de chegar até aqui Ou de uma explicação De um indício mais veemente que você existe. Você sabe que existe tempo pra tudo... Talvez você não exista, Talvez você ainda nascerá Mas esse talvez não ajuda a cavar cavar cavar cavar cavar Quem cava sou eu E isso reduz meus horizontes e meu tempo paras as festas. Porque eu sei que não vou encontrá-la numa festa Não gostamos de festas. Mas de uma coisa tenho certeza E essa coisa que tenho certeza vou guardar para mim. Não quero ser injusto, meu amor. Eu lhe aguardarei e que morra o tempo e sua implacável contagem. Sabe, meu amor...Não, a loira do 132 não é, ela é casada...Boa ela é, mas não é ela.... posted by Unamuno" e-mail Mãos Feridas Deixo à minha alma essa batalha racional Aqui, a minha poesia Poesia das minhas mãos feridas Do meu vôo interrompido pelo cutelo do destino, Do meu amor que morrerá, um tão intenso e tão curto incêndio, mas que deixará tanta cinza, E já há tanta cinza... Eu não sei, Não, eu não sei Outros sabem. Os poetas de cinzéis na mão, que esculpem na pedra os seus poemas, Pedras vivas, esses sabem... Eu não, eu cinzelo minha poesia nesse coágulo de nada, Eu invento o vazio e deixo-o morrer vazio, perplexo, triste, E não vou mais além, Não fui, ou melhor, fui menos que o vento que agita os cabelos da bela troiana, Esse a toca, Outros, esculpem Eu não. Eu passo como o lento caracol, Que além de tudo, não sabe o caminho. Foi com a rudeza das minhas mãos que toquei a flor. Flor que não era minha. Jardim que não é meu. Jardineiro que não sou eu, E minhas rudes mãos de pronto quiseram destruir o mundo da flor. Destruir o jardineiro. Destruir o poeta de cinzel na mão. As minhas mãos, Mãos que são minhas, mãos feridas, mas feridas com meu próprio espinho, Meu próprio ácido, mãos da minha insensatez... Os rios ainda sangram sua água límpida Eu também sangrarei uma alma límpida E minhas mãos se recuperarão da insensatez do seu gesto. A flor, o jardim, o jardineiro poeta com cinzel na mão, fecham esse poema, Mas se abrem para a vida, para o mundo, muito além dos muros e das manhãs... posted by Unamuno" e-mail Seco Pois é Consumado está. A tristeza tem os pés frios e caminha devagar na minha alma, Mas eu tenho uma paciência infinita... Estou melhor hoje que ontem. A dureza da jornada tem me ensinado. Mas ás vezes, fraquejo, ás vezes me perco, acuso o golpe, beijo a lona, afundo... E não me valho mais do que desse fio de lucidez que me conduz. É tudo que tenho e é por esse minguado fio de lucidez que me bato, guerreio... O tempo tem me varrido as palavras. A poesia seca. E tudo isso é bem vindo. Quero me queimar sob o sol da minha minguada lucidez... posted by Unamuno" e-mail Nada O fim é o fim Do fim. Mas o fim também é ilusão Dentro da ilusão e tudo é ilusão Do que não é morte e a morte do que não é, Do que não foi, não será sim nem não nem nada. A asa do nada, sem conflito, Acalma Grande que não era grande, Montanha que amanheceu no chão Nesse deserto que escorre no meio da rua, Escorre pela vida sem vida, areia e alma. Eu passo. Fecho os olhos aos olhos vazios do céu E sou o espelho do meu sangue, a carne, uma esponja, Água, lodo,lama Energia do pó, eu passo, Deixo meu vazio, minha sede, estas palavras... posted by Unamuno" e-mail Sozinho Eu sigo sozinho o meu caminho, Sozinho, A minha estrada, E levo a minha cabeça dantesca, Um fiapo de alma lavado em nenhuma mágoa, Sóbrio, Mas no centro dessa vertigem, Dessa festa, dessa guerra, da lágrima dos felizes e dos desesperados, Desse dia Ou de outra noite... Não sei se isso me torna menor, Menos significante, Não sei se isso me conduzirá a algum lugar, Aliás, eu nada sei. Confesso a minha ignorância dos signos desse mundo vasto e complexo. Sem soberba, Comungo no meu tédio, sem náusea e dor, Nesse rio vazio onde nenhuma água corre, No chão queimado, Nos escombros da última batalha Sem vencidos, Nem vencedores Eu sigo sozinho nessa estrada, Mas não solitário, E vou além Eu vou Preciso. A rota não está definida, As sombras se alongam e se perdem No caminho das dúvidas, Das atordoadas lembranças, Das perdas, pedras, pontos, Do eterno faz de conta que veste a história, O rumor do meu cotidiano, O destino, Das margens, da chuva, vastos relâmpagos, da força dos ventos Que me curvam como um caniço, Um pé de milho na beira da estrada, Mas caminho, Arrasto meus pés, Esse sou eu, Cruzando a tela vazia, sem platéia, sem o céu castanho do teu olhar, Do límpido azul que se foi Sozinho, apenas, Mas te trazendo no meu coração, na alma, no amanhecer, Nesse caminho que talvez seja mesmo o meu... posted by Unamuno" e-mail Esse Mundo Quieto sou eu Eu sou o quieto Nesse mundo intransponível. É um mundo, certo? É real, Tem coisas, fatos, gente importante, Cálculos, canções, navios, esperança, futebol, Tudo vasto, intenso, cruel, poroso, duro, necessário, E amores tantos Perfeito, imperfeitos, que morrem, vivem, surpreendem... É um mundo, certo, Em movimento, A roda que roda, Que destrói, renova, refuga, refaz, Assim a tua dor, infenso poeta, morrerá como o grão de café no moinho, O amor, idem, O resto é tua imagem se desfazendo no espelho, A tua face tosca pingando no chão duro, Dessa cidade, concreto que pulsa indiferente, Aço. Areia que vai, Areia que volta... Eu sei, certo? Que viajei em silêncio E dormi sem muitos sonhos Que voei pouco E caminhei muito mais, Que eu não queria você assim, Que fosse apenas você Você Que eu amo E amo O mundo Esse mundo, certo? Que me pesa sobre os ombros, E escorre pelo suor, Que me esconde pelos caminhos E traz o meu amor em uma bandeja de ventos, Na penumbra do dia, No chão de lua dessa noite inquieta, Ela, você Canção que canta Esse amor, Fogo de átomos, nesse mundo, explodindo, certo? Rio de larva, Rio de cinzas, Chuva ácida, agridoce, Fumaça... Coisas do mundo, esse mundo, o meu, certo? posted by Unamuno" e-mail sem sem sem sem nada só a lâmina que corta o vento o dia o sol que seca a noite que inflama sem a vida o nosso esse amor sem um caminho o sol morrendo na praia, o meu, o seu desejo, despenhadeiro, voando as águias, os devaneios, nesse tropel de sombras o nosso tempo, meu amor nossa canção nosso céu castanho, luminoso, resistindo, resistimos, ainda somos nós ainda seremos nosso dia., ainda nosso amor...... posted by Unamuno" e-mail Você Tarde, É assim O céu azul, Um resto de sol. Você magoada, O cinzel desajeitado das minhas palavras, Esculpindo no silêncio, feriu O céu iluminado dos teus olhos, tua alma, O pedregulho dessas malfadas e insensíveis palavras. Que eu te amo tanto, meu amor, Quieto, sob o peso deste mundo, nessa tarde amena, de céu azul, E muito além dessa mera circunscrição de palavras trôpegas, E muito além do que pode lavrar o suor da minha inspiração, Além dessas canções que rolam no ar, e se arrancham no meu coração. Tudo tão pouco, meu amor. Mas, escassas as palavras, o silêncio me completa. Esse silêncio que viaja no ar e invade a sua respiração, Que incorpora, transfigura, enleva, transporta, E me traz você, Tão linda, Tão suave, Tão você... posted by Unamuno" e-mail Destino Fico Na palma de minha Alma Sem dia Sem Branco mar sem ondas Espatifaram as vitrines, explodiram a rua Branco Luz branca O sangue branco Na veia Olho Olham O duro golpe trouxe areia e fumaça Não morro Deixo o meu coração chorar como um menino perdido em uma rua deserta Deixo A chuva O gelo O tédio Na cruz alta do meu pensamento Somo Meus pés Não quero mais Nada Deram-me o que me tiram Deram Tiram-me O simples prazer de tirar Eu fiquei Sobra de mim Sombra e farelo O destino selado posted by Unamuno" e-mail O Poste Nunca gostei de partir Prefiro ficar Permanecer Poderia ter nascido um imenso, magro e desalentado poste, Com uma cabeça de luz, Iluminando uma ruazinha perdida E estaria feliz Ou menos triste Estaria mais concreto Cravado Convicto, Varando o frio, noite, madrugada, a solidão, Irrigado pelo xixi dos cachorros, Acossado pelos vôos dos insetos belicosos, Das lustrosas baratas voadoras, Pela chuva, Pela lama, Pelos ferozes carros, Imóvel, Indelével Um inabalável poste... Porque eu odeio partir, Mudar Sair Deixar Viajar Invadir sonhos, Desenhar com os dedos magros da ilusão Pintar com os dedos magros da ilusão no pó dessa minha vida E quieto, Silenciosamente, Perdê-la... Odeio, Simplesmente odeio, Calorosamente odeio, Mas sem ódio Sem dor, Pacificamente como um cordeiro na mesa dos reis, Antes e depois, Escorrendo pela chama da areia, Pela chama do nada, Pelos gritos órfãos, Na viagem dos aflitos até ao amanhecer... Mas o tempo vira a folha. O dia passa. Da minha janela nem um mar, Nem uma gaivota no horizonte. Sequer um céu, Apenas a imagem teimosa De uma rua perdida Iluminada Pelo solene e inabalável poste, Armado no concreto, Alheio, Mas presente, sempre... posted by Unamuno" e-mail Ela Quero ou não quero Esqueço ou não esqueço Peço ou não peço Morro ou não vivo Ligo ou não ligo Quero escrever um livro Na minha cabeça vazia Na minha alma ensopada Na raiz de toda essa indecisão Escrever sim Para a glória, para a fama, sucesso. Quem sabe remoço vinte anos, caso com ela, lua de mel em Andorra Velha, Ela na minha cama, a paisagem na janela, musica no ar... Quem sabe, nesse louco e distraído mundo? Da minha alma carnal que a ama, Do coração do meu espírito que a adora e espera, Dessa imensa solidão, Dessa engrenagem da dor moendo, remoendo, O frio, a chuva, o meteoro do tempo, a ameaça de guerra, e ela demorando tanto... Ela, o meu amor Ela que amo Ela que me deixa assim, O espinho do silêncio atravessado na minha garganta, Quieto, Um caramujo espiando a chuva fria, que cai lá fora, Dedos cruzados sustentando a precária paz, Na noite, Noite, meu amor... posted by Unamuno" e-mail Ela Canta Tudo talvez Mas o talvez existe, É uma possibilidade dentro da noite, Mas que caminha no fio do dia, E é talvez, o incerto Um tempo que nunca foi, Um tempo que da memória jamais se apagará, Talvez Nessa hora que agora é, Num palco de extrema conjecturas, Iluminado por uma lua imensa, Ela canta, a vida Ele vive, o sonho... E o vento é cúmplice, O espinho é cúmplice, No caminho de terra e nuvens, Das pedras que pulsam Flores que irão brotar, Ela canta, a vida Ela, o sonho... posted by Unamuno" e-mail Depois do sonho Eu não sei mais O que sou Nada Passei Como um camelo Os cascos Gole de ar Réstia Sombra Escalpos Gestos Agonizantes. Passei Ela se foi, Primeiro o sonho, Depois essa fome Inútil. Ela se foi, Sem sonho Sem fome Amanheço... posted by Unamuno" e-mail Senhorita Ah você, meu amor Que hoje passou silenciosa, Não deixou palavras, Marcando sua ausência. Você, senhorita carinhosa, Que pegou carona no vento, E veio até aqui com um tão intenso carinho e amor Tocando o ar em minha volta, invadindo o meu mundo, Escorrendo no meu sangue como a seiva da própria vida. Você, senhorita do amor, Doce e quieto sonho que me faz sonhar, Doce e quieta tempestade que me faz viver, Que me faz querer ir além do lento caminhar da minha sombra sobre o dia. Você, gentil senhorita, Senhora de minha alma, Senhora de todas as canções que me chegam ao ouvido, Que me ensina amar, que me ensina viver Que me ensinou olhar o céu...E a voar. Você, senhorita minha Senhora das minhas mão vazias Senhora do meu amor... posted by Unamuno" e-mail Eu sonho Eu sonho Como Bebo Você. É por você, meu amor Tudo que faço. Anoiteço, Amanheço, Caminho em volta do parque do Ingá E faço planos, do alto, Fitando a copa das árvores, que forma o tapete verdes das ruas. Por você Que me acordou hoje, Assim tão suave, com tanta doçura, Que não pude deixar de ser feliz. Por você, meu amor, Que está em mim e transformou tudo mais em circunstancial. O frio não me atinge, a chuva não me molha, o relâmpago não me assusta, O inimigo não me vence, a guerra não me importa, não acuso golpe, indiferente ao vento E a tempestade. No mar de minha paciência infinita, Nesta minha alma quieta, Só você, meu amor, consegue tocar, Só você... posted by Unamuno" e-mail 2003 Assim Como um boi ou um camelo Na estrada vazia. A próxima parada é uma festa. Terei maxixe no prato e capim no coração E haverá o que chamam de música. Dizem que é o final de 2003, Mas temo que estarei em 2003 no dia seguinte, E beberei a mesma sopa fria roubada de um mendigo descuidado. É a sina do planeta. Sem roubar e matar não se obtém uma boa refeição, Nem vitamina B12. Mas estamos liberados para comer os irracionais do planeta. A natureza do pecado é complexa e vai muito além do cardápio humano. Os vegetarianos não estarão livres do fogo do inferno como imaginam. Que cuidem da salvação da alma e da anemia! Meu ofício é entregar conselhos a domicílio. Se estás livre do pecado de matar o boi, de roubar não estarás. A solução é enganar o próximo. Um próximo bem enganado o livrará de pecados ignominiosos.. Como detesto conversa comprida, Afirmo que vivas bem na selva em que estás E tua recompensa estará garantida. Terás Uma selva melhor no futuro Um paraíso Uma mansão na praia de Vermônia. Uma pousada em Fernando de Noronha, Uma vaga no Barcelona E o que mais a tu vã idiossincrasia sonhar. Madrugada Madrugada, dúvidas, silêncio E eu não sei o caminho a seguir Não sei o que dizer, o que fazer, o que sonhar, o que pensar. Não sei. Olho e não vejo Com a mansidão de cinza cobrindo a brasa que já não arde, Que nada há E a nenhum lugar chegarei. É essa madrugada Onde respiro a minha paz Onde olho os seus olhos que me lembram de existir. Olhos que eu amo Que eu quero Do seu corpo como uma brisa que alegra o meu dia. Minha alma está quieta como uma palmeira em uma praia deserta E caminho na face da pedra polida sem pressa E caminho sem rumo e com as mãos vazias da sua. Aonde irei, meu amor? Aonde, Sem você? Só a canção No mar, a melodia, O céu sem nuvens, profundamente silencioso, cúmplice, Que me faz lembrar Que repetir eu posso Que te quero Como se eu pudesse Na fragilidade da ágil labareda Aprovar o seu gosto e viver Só um sonho a mais Só um sonho Antes que você se vá e se feche a cortina do último ato. posted by Unamuno" e-mail Barqueiro Ficar para dizer Que deste lado ou daquele outro, Sem você, A solidão. Abro a porta Para o tempo que não corre. A cidade que não existe. E espeto um pensamento, Contemplo o seu sorriso, Recuso o cinema Recuso Prefiro vagar pelos becos da minha alma, Correr os dedos pelo perfume dos seus cabelos. Voar junto com o seu vôo No silêncio, na escuridão Encontrar a sua mão. A sua hora, O seu dia, Amplamente. Do que eu não mereço No meu repasto de sonhos abandonados, Barqueiro invisível e solitário na grande noite do mundo. Só um barqueiro, Meu amor, só um barqueiro, Que nas noites solitárias, o céu escuro, o fulgor das estrelas, pensa longamente em você. posted by Unamuno" e-mail Eu Sei Que Vou Te Amar posted by Unamuno" e-mail Poeta sem poesia Poeta sem poesia É um poeta Em paz. Com os óculos sobre o nariz Ruminando o fio da madrugada, A fuga da moça bonita ao entardecer. É um poeta sem pressa Seguindo o seu caminho Sem guarda-chuva, sem ritual, sem relógio, sem cinzas. Virão os amanhãs, Virão as águias E as estrelas. Um pote de dor Um pote de fel Uma punhalada, Esperarão pacientemente uma vez que nunca virá, Esperarão pacientemente o poeta desmontar a última ilusão E penetrar fundamente a singularidade da pedra. Uns dirão que o poeta não passou Outros dirão que o poeta não existiu Outros dirão que o poeta foi uma pedra. Mas era só um poeta dentro de uma pedra com uma pedra no peito E em paz. posted by Unamuno" e-mail Passagem Você veio, meu amor, Diante de mim e te vejo como se fosse um sonho Que se desdobrasse em múltiplos sonhos, infinitos sonhos, Amplos, imensos, tão vastos que sequer alguém ousou sonhar, Muito menos viver ou testemunhar, Reduzindo a pouca expressão do meu dia em um intocável deserto do Atacama. Você veio, meu amor Diante de mim como se fosse a face abrupta do céu, Como se fosse tudo o que a Terra pode me dá em seu dia de maior magnanimidade, Como se o sulcos amargos que deixei se recuperassem no vento mínimo da manhã, Além dos meus rastros, da minha passagem súbita e quieta neste cantão de mistérios cósmicos. Você é assim, meu amor, Tem algo de mim e roubei o melhor de você. Visitei a atmosfera sonora do seu dia, Andei pelas areias quentes de sua praia E viajei com seus pressentimentos até a instância suprema dos que ainda amam. E antes que me despeça E que tudo seja ontem E todo este mundo de tanta matéria me seja uma vaga lembrança E que eu seja uma gota de sombra nas poucas lembranças amigas, Posso dizer, sem a mais leve dúvida e com a devida vênia dos tribunais amargos que com certeza me condenariam, posso dizer que te amei... posted by Unamuno" e-mail Voe, meu amor Voe, Que o dia é seu e é seu o sonho Você está longe e eu estou quieto Nesta mesma rua do que não fui Neste mesmo caminho de pó e dúvidas... Talvez haja uma praia e uma esperança em algum lugar E haja rios, pedras e boas notícias E que eu encontre você ao dobrar a esquina E que o seu sorriso nasça junto com o sol do meu dia E que eu me levante E faça um gol Que a platéia emudeça Que os sinos dobrem Que haja loucos e felizes Que eu acorde você E você me acorde E que vejamos juntos a paisagem, na mesma janela. Talvez haja Talvez não haja. Certamente não haverá. Ainda assim levarei você comigo. E roubarei você para mim Na voz do meu sangue a sua voz Escreverá no silêncio da minha alma uma canção para a vida inteira. posted by Unamuno" e-mail Confesso que Menti Há muitas palavras e estou cansado delas. Literalmente soterrado. Não quero um palco, Nem platéia. Todas as platéias são idiotas. Sou um tédio com uma lesma na lembrança E tenho feridas, muitos mortos e um cortejo de fracassos. Um dia pedi para viver mais um pouco. Fui atendido, obviamente. E foi apenas isso que pedi, que me eu me lembre, então nada me foi negado. Deus não está em débito comigo.Meus inimigos estão mais embaixo: Ronaldinho, Zico, Galvão Bueno, FHC, e mais alguns, que não me animo citá-los... Confesso que se fosse George W. Bush teria feito as mesmas guerras, e depois passaria o resto da vida triste e contido. Acho que a liberdade vale qualquer guerra. Confesso que não lutaria em uma guerra. Nem enfrentaria o carnaval do Rio. Não nasci para matar, nem pára herói. Sou um covarde consumado. A moça escondida diz que eu devia aproveitar a vida. Mas eu aproveito a vida. Quando lanceto o tumor e expulso o carnegão, eu aproveito a vida. Até quando mijo, aproveito a vida... Quando ela canta, eu aproveito a vida. Ela. É assim... posted by Unamuno" e-mail |
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