Café do Vento
a
 
A vitrine da minha introspecção.


 

de mim
apenas eu
poeta
quis-me Deus assim

sem plantar nem colher
nem partir nem ficar
tecendo a sombra dessas palavras
no silêncio sem dor

apenas poeta
eco nessa noite ampla
entre os fios da solidão e das aves empoleiradas e quietas...

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Não há noite
nessa noite
nem dia
nesse dia
apenas passa na porta fechada,
em chuva de silêncio,
incólume, a minha alma...



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perdoai...


aqui eu

fiel
a mim

degusto
minha mesmice
saboreio
meu nada

Um dia com Deus,
outros sem
caminho assim
na pouca alma dos pés.

são minhas mãos nuas
meu coração calado
apalpo minhas feridas
com uma paciência infinita

Não floreio
nesse meu desapego
nessa pouca tinta que ainda resiste
sou poeta ainda vivo, perdoai...

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eu


quando eu sou eu
menos eu ainda
sobro na minha insolvência peculiar
sobro no meu dia
minha viagem é mais completa assim
na roleta do meu sangue
a fresca sombra da minha alma
a dor de minha luta
quando sou e não sou
mais eu
menos eu
a minha derrota é minha vitória
na palma do céu a sinfonia,
o traço de pedra da cidade urgente,
sem palco,
sem tédio,
sem drama
apenas o vento que leva
e traz
que esquece
e me lembra
resfria
acende
cigarro, palha, destino, a agitação feroz do dia,
sou apenas o passageiro do futuro,
amanhã, a vida....


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Sozinho


No silêncio
Só a voz que canta
Silenciosamente.
Canta na minha imaginação, voz sem voz, mas tanta alma, tanta emoção.
Posso com dois cliques ouvi-la, o som flutuando no ar.
Mas a quero no silêncio da minha imaginação
Palpitando, aí o encanto, a sua voz, ou o pressentimento de sua voz,
A invadir-me completamente, não só a voz agora,
Mas a sua presença quase física,
A sua imagem, o olhar brilhando, o sorriso, tudo
Nesse particular e imponderável show.
Assim a escuto sozinho
Como sou,
Neste mais absoluto e completo silêncio.

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Não na canção


Não é o sol que se põe
O tempo que passa
O dia que morre
Os que se foram
Partiram deste
Ou qualquer mundo

Não é a chuva
A viagem insone da noites
A gosma da ilusão
A baba da derrota
A meia prisão
A crucificação óssea
Carnal
Cotidiana

Não é
Nada é
Nesse corte axial da realidade
O amor sufocado
Sem grito
Sem senha
Sem sanha
Sem manhã
Sem

E sequer existe o inimigo
Sequer existe a mentira
Seque existe
Ela
Tão bela
Nua
Doce
Nesse mundo emborcado e sonolento
Sem a sinfonia de outubro
Sem dueto
Nem canção de amor

Nada é
No horizonte enfermo
A dor consubstanciada
A revolta selada
A terra arada
A alma arada
A curva do tempo
O amor sufocado
Sem grito
Sem sanha
Sem senha
Sem manhã
Sem

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Sábado


junto as palavras
em um entendimento
o sol não me lembra
a lua me esquece
o que é dia
o que é noite
o que é essa imprecisão
do que não tenho
do que não posso ter
desse amor que bebo no meu sangue
bebo na minha vida
bebo na chuva
bebo nos recônditos poços da minha alma
da dor que não dói
da dor que ama
no vôo dessa canção
nesse sábado
o pingo do destino
o tempo de nosso tempo...

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Um dia


o lacre da dor
rompido
a alma quieta
anestesiada

e mergulho
tenho a vida no sol
a esperança caminha no vento,
os pés no frio do asfalto,
o coração que bate, os olhos bem abertos,
a pele, o sangue, a minha rude mansidão,
nesse fio do silêncio
do que sou do que quase sou
na espera, à porta do rotundo tempo,
que um dia será meu, um dia sera meu dia...

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Não sou eu


No leite desse ar,
Essa ambivalëncia toda
De quem é e não é e não será
E será história de ventos
Ponteando o nada
Dizendo eu não sou
Não, eu não sou

Eu não devia começar
Mas começo
Amanheço com as mãos o dia sofrido
Ergo a voz, calo o grito,
Meus olhos fuzilam a luz
Meu queixo imerso na areia
Na face o que sobrou
O que arranhou a voz
Deixou o cinza na alma
As minhas pegadas úmidas e soberanas no caminho

Não, eu não vou chorar
Não é meu esse grito
Não é minha essa dor
Que transforma o ar
Bolha de fogo e fel
Que se levanta na barra da manhã,
Desenhando a comiseração,
Nessa facilidade de lágrimas enganadoras
No molho da chuva fria
A dizer, eu digo não, não sou eu
E só tenho essa voz engasgada
Que pinga da terra
E vai mais além

Esse não sou eu
No tecido frio e escuro desse mundo
O galope da dor invadindo os quintais
Nesse indiferença oleosa quase humana
Quem se importa com o que seja
O que sou
A tessitura de minha pele
Ou com a orelha do meu pé
Então que essa festa festeje o seu arroz
Que os dromedários durmam de casacas.
Que haja uma casa, uma cidade, um céu privado
Com uma lua e um sol pintados na janela
Onde as vezes chove
Às vezes neva, névoa

Não, não sou eu
Nunca fui eu
Com certeza era o vento,
A palmeira se agitando na escuridão,
Decerto um reflexo
Que cruzou a monotonia do dia
E não era eu
Que eu sou mais canino
Os pés rosnando na fuligem do chão de terra
E a alma vadiando no coração do céu
Absolutamente livre
Sem as amarras do ventos
Sem o peso das sombras
Sem os olhos escuros e doloridos mirando a indirença do espelho...

E esse sou eu
Cão no chão
Cão no sonho
Cão sempre...

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Despedida


Do que sou
nada sou
e minha face pinga sobre as pedras do dia

Nesse encrave de imenso sol,
sua doçura passeia de rosa e branco
e nem preciso repetir no silêncio das palavras que te amo.

Você sabe
eu sei
nesse abraço de nossas palavras doloridas

Doloridas de uma dor que não dói
apenas lembra, que na nossa fuga, esquecemos a fogueira acesa,
mudas estrelas como testemunhas...

E lembra que o sol
voltará ao seu sorriso
e eu voltarei ao meu Posto de Gasolina. A vida continua....

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Jardim


Compro da tarde
A poesia,
Escrevo esse meu verso quieto
Para que fiques um pouco comigo

É que a tarde ainda está úmida,
Depois de um fria e nevoenta manhã,
Mas agora há luminosidade, o discreto azul do céu.
Enquanto, sem rumo, me movo dentro da lógica estabelecida

Deslizo no asfalto molhado sem medo,
Mesmo com tanta água não há magoa
E descubro no conflito silencioso da minha vida
Que não há solução para o amor que se arranchou em minha alma.

Não há remédio. Não há. O destino que não se equivoque
Sou eu quem cuida dessas flores imaginárias, no vão desse impossível jardim
Com a mesma paciência de jardineiro que não se fatiga do seu ofício
E essa é a minha vida, esse o meu viver...



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manhã


quero-te
nessa manhã inglória
vazia

quero-te
antes que minha sombra se desfaça
e leve minha vida no vento qualquer

quero-te
tua boca como uma romã
a curva mínima do teu seio

quero-te
quando sei que o meu amor morre
como morrem meus dedos cansados

nessa manhã espacial
sem glória
vazia.

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Tempo


Tenho o tempo,
mas o tempo também me tem.

Na fluidez dessa indecisão,
entre os muros oleosos,
observando a minha indiferença em branca fuga.

Que voem os abutres
e rondem as feras
nessa paisagem erma e silenciosa.

Não importa. Mesmo que o tempo se vá
e tudo em volta se desfaça,
e tudo se dissolva em orgasmo e larva,
restará um prato vazio, a saciar
minha boca vazia,
meu coração vazio.



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Meu Silêncio


Vai, meu silêncio,
Fala por mim.
Diz o que penso, diz o que sinto,
Substitui a minha boca muda,
O meu coração calado,
E leva os meus pensamentos, minha alma,
O apelo de minhas mãos, o clarão dos meus sonhos.
Vai, meu silêncio, encontre-a, toque-a,
Cresça dentro do seu quarto, ocupe todas as metáforas do ar,
Respire junto com ela,
Mas não mexa em seus sonhos,
Não, não mexa em seus sonhos,
Apenas envolva-a com meus pensamentos, esconda-os dentro de sua alma.
Vai, meu silêncio, meu camarada, leve-me lá...Esquecer não, não permita....



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Do meu mundo



Era o meu mundo
Um mundo pequeno,
Construído pelas minhas mãos vazias.
Não existia lá muita coisa,
A lua era um borrão que acendi no céu,
O sol não tinha hora para acordar,
Poucas plantas, árvores sem seiva,
Pouca ou quase nenhuma flor.
Era meu mundo, intocável, impermeável a realidade, a minha fuga
Ali ninguém entrava sem meu consentimento,
Nada era possível sem o selo da minha vontade.
Um dia ela apareceu.
Caminhou descalça pelo meu mundo, ágil e leve,
Depois sentou-se no chão, abriu um vasto e iluminado sorriso e achou tudo maravilhoso.
Dançou, cantou, achou bela uma pequena flor e a prendeu no cabelo.
Havia o seu perfume no ar, as pegadas na areia., o seu carinho, a doçura.
A sua presença fazia fluir a emoção e tudo se renovava
Ela se tornou uma certeza maior que o sol no meu mundo. Muito maior.
De repente, os meus versos abandonaram o vazio e voaram em sua direção.
Meu Deus, ela é minha, eu pensei.
Esqueci-me que havia um mundo lá fora.
Que havia um tempo e seu relógio inexorável.
Que havia os homens de preto, leis, convenções.
Esqueci-me.
E a amei com toda força da minha alma, de cada fibra da minha alma.
Não se ama um sonho assim.
Um homem feito não chora por um sonho.
Mas sei que nessa impermanência do meu dia,
Deste meu mundo que agora é dela,
no fim dessa viagem,
Eu conjugo a minha paz, a nossa paz, a nossa infinita paz
Que Deus a proteja, meu amor!!!


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Fim



Vai assim
Como se o fim dos tempos
Fosse agora.

Os Sinos não repicam
Não há choro nem ranger de dentes
Gritos ou tumulto

Ninguém sabe
Só o meu peito vazio
Minha alma que ressoa como o túmulo de todos os mortos.

Ninguém sabe
Ninguém ler o meu olhar coagulado sobre a paisagem vazia
Nem repara no cão feroz, ensandecido, que não sabe se morde ou pula no precipício.

Não há dor nem revolta
Ninguém sangra lentamente sobre a grama da praça da Matriz
Ferido pelo cutelo silencioso do destino.

Minha alma também está em pleno silêncio,
Mas a batalha é surda e percorre todos os extremos permitidos a um solitário humano
E mesmo o imenso bombardeio é abafado pelo ruído da rua.

Um pequeno palco humano na trepidação infinita,
Sob a semi-escuridão
Resta o ator solitário mirando a platéia indiferente.

Minha consciência não sabe julgar-me,
Minha alma está vazia,
Não posso mais restaurar os muros derrubados.

Não posso mercadejar ilusão
Nem construir imensos castelos, meras abstrações da fantasia
Nem enganar o meu olho, acuar os nervos infeccionados.

Esperarei o fim dos tempos
De pé e pronto,
Depois, tudo consumado, restará a minha perplexidade em algum golfo cósmico.

Ou serei nada
De nada
Um risco quântico...

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Sem


Vai, minha dor, com a força do teu aço,
De lenhador rachando o galho seco,
Racha minha alma...
Essa minha alma que rosna, alma de cão fiel
De cão sem dono, cão sem lua, de cão impassível,
Cruelmente impassível,
Furiosamente impassível.

Vai, minha dor infatigável,
Soberana muda a vasculhar os porões do meu destino,
Apresenta-me teu punhal,
Crava esse punhal
Até que os olhos de cão da minha alma desistam de sonhar,
Até que essa espectral fantasia morra sonora e fundamente
E morra completamente como morrem os vermes esquecidos no fundo da terra,
Essa mesma terra que implacavelmente recolherá todo este imensurável drama humano.

Vai, minha dor, algoz e companheira,
Nessa noite, com seus silêncios de tantos pântanos, onde você, minha deliciosa ninfa, corre nua, no fundo acuado do meu olho, voando por essas paredes áridas, você que roubaram de mim tão violentamente, nessa ingratidão cósmica, implacável injustiça estabelecida contra a serenidade de minha alma.

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Testamento

Do que fui só
Essa sombra espectral
Pelo caminho.

Uma nesga de lua,
Um pingo de sol
Na acanhada e poeirenta estrada.

Sem meu violão,
Sem minha voz que pudesse cantar,
Acompanhando o eco da festa que não fui,

Não voei,
Não massageei as costas da moça dourada,
Não pulei de pára-quedas em uma queda livre sobre o silencioso e infinito azul

Não fui além,
Não roubei, não matei, não conspurquei,
Não patinei no gelo, não fui a ópera, ao Maracanã, nem a Paris

Não prestei atenção no vizinho, nem nos inimigos
Não gastei bom dia à toa,
Nem aprendi fazer um feijão decente e um arroz sem queimar.

Não entrarei nos anais da história,
Não serei lembrado
Não serei

Mas saiba, meu amor, que fui o melhor ponta-direita da rua Antenor Navarro,
Um exímio caçador de lagartixas
E enfrentei em briga de rua o valente Nego Lambu e o abominável Castanha...

Parece pouco, meu amor
Mas não importa. O que importa é que estive aqui, no planeta azul
E conheci você...

Mesmo que de passagem
De leve,
Você esteve no meu caminho...

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Você, onde está?


Está claro e escuro
Mas não é nada,
Não é dia,
Não é noite,
Não é tempo,
Só o bocejo cruel,
Cósmico e cruel,
Ou só cósmico

Devoro a minha língua
Devoro-a
Nesta ingente fricção do amor
Fricção de corpos,
Fricção de nervos,
Esse eterno cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar

Onde está você, eu pergunto
Onde está?
Por que nunca veio? Por que nunca morou na minha rua?
Por que não esteve ao meu lado enquanto eu navegava e o mar não estava calmo?
Que fiz eu a você? E quando?
E eu procuro. Nem mais sei como é a sua face.
Existe uma explicação de por que você nunca apareceu na minha vida?
Onde está você?
Onde?
Devo cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar
Ou devo voar sem asas
Para encontrá-la??

Não é essa introspecção,
Não é essa canção que não toca,
Esse dia que não chega,
Nem essas araras invisíveis rodando o meu humor,
Não é nada,
É que chegou seu tempo de chegar até aqui
Ou de uma explicação
De um indício mais veemente que você existe.
Você sabe que existe tempo pra tudo...

Talvez você não exista,
Talvez você ainda nascerá
Mas esse talvez não ajuda a cavar cavar cavar cavar cavar
Quem cava sou eu
E isso reduz meus horizontes e meu tempo paras as festas.
Porque eu sei que não vou encontrá-la numa festa
Não gostamos de festas.
Mas de uma coisa tenho certeza
E essa coisa que tenho certeza vou guardar para mim.
Não quero ser injusto, meu amor.
Eu lhe aguardarei e que morra o tempo e sua implacável contagem.
Sabe, meu amor...Não, a loira do 132 não é, ela é casada...Boa ela é, mas não é ela....


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Mãos Feridas


Deixo à minha alma essa batalha racional
Aqui, a minha poesia

Poesia das minhas mãos feridas
Do meu vôo interrompido pelo cutelo do destino,
Do meu amor que morrerá, um tão intenso e tão curto incêndio, mas que deixará tanta cinza,
E já há tanta cinza...

Eu não sei,
Não, eu não sei
Outros sabem. Os poetas de cinzéis na mão, que esculpem na pedra os seus poemas,
Pedras vivas, esses sabem...
Eu não, eu cinzelo minha poesia nesse coágulo de nada,
Eu invento o vazio e deixo-o morrer vazio, perplexo, triste,
E não vou mais além,
Não fui, ou melhor, fui menos que o vento que agita os cabelos da bela troiana,
Esse a toca,
Outros, esculpem
Eu não. Eu passo como o lento caracol,
Que além de tudo, não sabe o caminho.

Foi com a rudeza das minhas mãos que toquei a flor.
Flor que não era minha. Jardim que não é meu. Jardineiro que não sou eu,
E minhas rudes mãos de pronto quiseram destruir o mundo da flor.
Destruir o jardineiro. Destruir o poeta de cinzel na mão. As minhas mãos,
Mãos que são minhas, mãos feridas, mas feridas com meu próprio espinho,
Meu próprio ácido, mãos da minha insensatez...

Os rios ainda sangram sua água límpida
Eu também sangrarei uma alma límpida
E minhas mãos se recuperarão da insensatez do seu gesto.

A flor, o jardim, o jardineiro poeta com cinzel na mão, fecham esse poema,
Mas se abrem para a vida, para o mundo, muito além dos muros e das manhãs...


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Seco


Pois é
Consumado está.

A tristeza tem os pés frios e caminha devagar na minha alma,
Mas eu tenho uma paciência infinita...

Estou melhor hoje que ontem. A dureza da jornada tem me ensinado.
Mas ás vezes, fraquejo, ás vezes me perco, acuso o golpe, beijo a lona, afundo...

E não me valho mais do que desse fio de lucidez que me conduz.
É tudo que tenho e é por esse minguado fio de lucidez que me bato, guerreio...

O tempo tem me varrido as palavras. A poesia seca. E tudo isso é bem vindo.
Quero me queimar sob o sol da minha minguada lucidez...

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Nada


O fim é o fim
Do fim.

Mas o fim também é ilusão
Dentro da ilusão e tudo é ilusão

Do que não é morte e a morte do que não é,
Do que não foi, não será sim nem não nem nada.

A asa do nada, sem conflito,
Acalma

Grande que não era grande,
Montanha que amanheceu no chão

Nesse deserto que escorre no meio da rua,
Escorre pela vida sem vida, areia e alma.

Eu passo.
Fecho os olhos aos olhos vazios do céu

E sou o espelho do meu sangue, a carne, uma esponja,
Água, lodo,lama

Energia do pó, eu passo,
Deixo meu vazio, minha sede, estas palavras...


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Sozinho



Eu sigo sozinho o meu caminho,
Sozinho,
A minha estrada,
E levo a minha cabeça dantesca,
Um fiapo de alma lavado em nenhuma mágoa,
Sóbrio,
Mas no centro dessa vertigem,
Dessa festa, dessa guerra, da lágrima dos felizes e dos desesperados,
Desse dia
Ou de outra noite...

Não sei se isso me torna menor,
Menos significante,
Não sei se isso me conduzirá a algum lugar,
Aliás, eu nada sei.
Confesso a minha ignorância dos signos desse mundo vasto e complexo.
Sem soberba,
Comungo no meu tédio, sem náusea e dor,
Nesse rio vazio onde nenhuma água corre,
No chão queimado,
Nos escombros da última batalha
Sem vencidos,
Nem vencedores

Eu sigo sozinho nessa estrada,
Mas não solitário,
E vou além
Eu vou
Preciso.
A rota não está definida,
As sombras se alongam e se perdem
No caminho das dúvidas,
Das atordoadas lembranças,
Das perdas, pedras, pontos,
Do eterno faz de conta que veste a história,
O rumor do meu cotidiano,
O destino,
Das margens, da chuva, vastos relâmpagos, da força dos ventos
Que me curvam como um caniço,
Um pé de milho na beira da estrada,
Mas caminho,
Arrasto meus pés,
Esse sou eu,
Cruzando a tela vazia, sem platéia, sem o céu castanho do teu olhar,
Do límpido azul que se foi
Sozinho, apenas,
Mas te trazendo no meu coração, na alma, no amanhecer,
Nesse caminho que talvez seja mesmo o meu...



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Esse Mundo


Quieto sou eu
Eu sou o quieto
Nesse mundo intransponível.

É um mundo, certo?
É real,
Tem coisas, fatos, gente importante,
Cálculos, canções, navios, esperança, futebol,
Tudo vasto, intenso, cruel, poroso, duro, necessário,
E amores tantos
Perfeito, imperfeitos, que morrem, vivem, surpreendem...

É um mundo, certo,
Em movimento,
A roda que roda,
Que destrói, renova, refuga, refaz,
Assim a tua dor, infenso poeta, morrerá como o grão de café no moinho,
O amor, idem,
O resto é tua imagem se desfazendo no espelho,
A tua face tosca pingando no chão duro,
Dessa cidade, concreto que pulsa indiferente,
Aço.
Areia que vai,
Areia que volta...

Eu sei, certo?
Que viajei em silêncio
E dormi sem muitos sonhos
Que voei pouco
E caminhei muito mais,
Que eu não queria você assim,
Que fosse apenas você
Você
Que eu amo
E amo
O mundo

Esse mundo, certo?
Que me pesa sobre os ombros,
E escorre pelo suor,
Que me esconde pelos caminhos
E traz o meu amor em uma bandeja de ventos,
Na penumbra do dia,
No chão de lua dessa noite inquieta,
Ela, você
Canção que canta
Esse amor,
Fogo de átomos, nesse mundo, explodindo, certo?
Rio de larva,
Rio de cinzas,
Chuva ácida, agridoce,
Fumaça...
Coisas do mundo, esse mundo, o meu, certo?


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sem


sem
sem
sem
nada

só a lâmina que corta
o vento
o dia
o sol que seca
a noite que inflama

sem
a vida
o nosso
esse amor
sem
um caminho
o sol morrendo na praia,
o meu, o seu desejo,
despenhadeiro,
voando as águias,
os devaneios,
nesse tropel de sombras
o nosso tempo, meu amor
nossa canção
nosso céu castanho, luminoso,
resistindo,
resistimos,
ainda somos nós
ainda seremos nosso dia.,
ainda nosso amor......

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música



Você


Tarde,
É assim
O céu azul,
Um resto de sol.

Você magoada,
O cinzel desajeitado das minhas palavras,
Esculpindo no silêncio, feriu
O céu iluminado dos teus olhos, tua alma,
O pedregulho dessas malfadas e insensíveis palavras.

Que eu te amo tanto, meu amor,
Quieto, sob o peso deste mundo,
nessa tarde amena, de céu azul,
E muito além dessa mera circunscrição de palavras trôpegas,
E muito além do que pode lavrar o suor da minha inspiração,
Além dessas canções que rolam no ar, e se arrancham no meu coração.

Tudo tão pouco, meu amor.
Mas, escassas as palavras, o silêncio me completa.
Esse silêncio que viaja no ar e invade a sua respiração,
Que incorpora, transfigura, enleva, transporta,
E me traz você,
Tão linda,
Tão suave,
Tão você...

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Destino


Fico
Na palma de minha
Alma
Sem dia

Sem
Branco mar sem ondas

Espatifaram as vitrines, explodiram a rua

Branco
Luz branca
O sangue branco
Na veia

Olho
Olham
O duro golpe trouxe areia e fumaça
Não morro

Deixo o meu coração chorar como um menino perdido em uma rua deserta
Deixo
A chuva
O gelo
O tédio
Na cruz alta do meu pensamento

Somo
Meus pés
Não quero mais

Nada

Deram-me o que me tiram
Deram
Tiram-me
O simples prazer de tirar

Eu fiquei
Sobra de mim
Sombra e farelo
O destino selado


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O Poste


Nunca gostei de partir
Prefiro ficar
Permanecer

Poderia ter nascido um imenso, magro e desalentado poste,
Com uma cabeça de luz,
Iluminando uma ruazinha perdida
E estaria feliz
Ou menos triste
Estaria mais concreto
Cravado
Convicto,
Varando o frio, noite, madrugada, a solidão,
Irrigado pelo xixi dos cachorros,
Acossado pelos vôos dos insetos belicosos,
Das lustrosas baratas voadoras,
Pela chuva,
Pela lama,
Pelos ferozes carros,
Imóvel,
Indelével
Um inabalável poste...

Porque eu odeio partir,
Mudar
Sair
Deixar
Viajar
Invadir sonhos,
Desenhar com os dedos magros da ilusão
Pintar com os dedos magros da ilusão no pó dessa minha vida
E quieto,
Silenciosamente,
Perdê-la...

Odeio,
Simplesmente odeio,
Calorosamente odeio,
Mas sem ódio
Sem dor,
Pacificamente como um cordeiro na mesa dos reis,
Antes e depois,
Escorrendo pela chama da areia,
Pela chama do nada,
Pelos gritos órfãos,
Na viagem dos aflitos até ao amanhecer...

Mas o tempo vira a folha.
O dia passa.
Da minha janela nem um mar,
Nem uma gaivota no horizonte.
Sequer um céu,
Apenas a imagem teimosa
De uma rua perdida
Iluminada
Pelo solene e inabalável poste,
Armado no concreto,
Alheio,
Mas presente, sempre...

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Ela


Quero ou não quero
Esqueço ou não esqueço
Peço ou não peço
Morro ou não vivo
Ligo ou não ligo

Quero escrever um livro
Na minha cabeça vazia
Na minha alma ensopada
Na raiz de toda essa indecisão
Escrever sim
Para a glória, para a fama, sucesso.
Quem sabe remoço vinte anos, caso com ela, lua de mel em Andorra Velha,
Ela na minha cama, a paisagem na janela, musica no ar...
Quem sabe, nesse louco e distraído mundo?

Da minha alma carnal que a ama,
Do coração do meu espírito que a adora e espera,
Dessa imensa solidão,
Dessa engrenagem da dor moendo, remoendo,
O frio, a chuva, o meteoro do tempo, a ameaça de guerra, e ela demorando tanto...

Ela, o meu amor
Ela que amo
Ela que me deixa assim,
O espinho do silêncio atravessado na minha garganta,
Quieto,
Um caramujo espiando a chuva fria, que cai lá fora,
Dedos cruzados sustentando a precária paz,
Na noite,
Noite, meu amor...

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Ela Canta


Tudo talvez
Mas o talvez existe,
É uma possibilidade dentro da noite,
Mas que caminha no fio do dia,
E é talvez, o incerto
Um tempo que nunca foi,
Um tempo que da memória jamais se apagará,
Talvez
Nessa hora que agora é,
Num palco de extrema conjecturas,
Iluminado por uma lua imensa,
Ela canta, a vida
Ele vive, o sonho...
E o vento é cúmplice,
O espinho é cúmplice,
No caminho de terra e nuvens,
Das pedras que pulsam
Flores que irão brotar,
Ela canta, a vida
Ela, o sonho...

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Depois do sonho


Eu não sei mais
O que sou
Nada

Passei
Como um camelo
Os cascos
Gole de ar
Réstia
Sombra
Escalpos
Gestos
Agonizantes.

Passei
Ela se foi,
Primeiro o sonho,
Depois essa fome
Inútil.

Ela se foi,
Sem sonho
Sem fome
Amanheço...


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Senhorita


Ah você, meu amor
Que hoje passou silenciosa,
Não deixou palavras,
Marcando sua ausência.

Você, senhorita carinhosa,
Que pegou carona no vento,
E veio até aqui com um tão intenso carinho e amor
Tocando o ar em minha volta, invadindo o meu mundo,
Escorrendo no meu sangue como a seiva da própria vida.

Você, senhorita do amor,
Doce e quieto sonho que me faz sonhar,
Doce e quieta tempestade que me faz viver,
Que me faz querer ir além do lento caminhar da minha sombra sobre o dia.

Você, gentil senhorita,
Senhora de minha alma,
Senhora de todas as canções que me chegam ao ouvido,
Que me ensina amar, que me ensina viver
Que me ensinou olhar o céu...E a voar.

Você, senhorita minha
Senhora das minhas mão vazias
Senhora do meu amor...


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Eu sonho



Eu sonho
Como
Bebo
Você.

É por você, meu amor
Tudo que faço.
Anoiteço,
Amanheço,
Caminho em volta do parque do Ingá
E faço planos, do alto,
Fitando a copa das árvores, que forma o tapete verdes das ruas.

Por você
Que me acordou hoje,
Assim tão suave, com tanta doçura,
Que não pude deixar de ser feliz.

Por você, meu amor,
Que está em mim e transformou tudo mais em circunstancial.
O frio não me atinge, a chuva não me molha, o relâmpago não me assusta,
O inimigo não me vence, a guerra não me importa, não acuso golpe, indiferente ao vento
E a tempestade.
No mar de minha paciência infinita,
Nesta minha alma quieta,
Só você, meu amor, consegue tocar,
Só você...

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2003

Assim
Como um boi ou um camelo
Na estrada vazia.

A próxima parada é uma festa.
Terei maxixe no prato e capim no coração
E haverá o que chamam de música.

Dizem que é o final de 2003,
Mas temo que estarei em 2003 no dia seguinte,
E beberei a mesma sopa fria roubada de um mendigo descuidado.

É a sina do planeta.
Sem roubar e matar não se obtém uma boa refeição,
Nem vitamina B12.

Mas estamos liberados para comer os irracionais do planeta.
A natureza do pecado é complexa e vai muito além do cardápio humano.
Os vegetarianos não estarão livres do fogo do inferno como imaginam. Que cuidem da salvação da alma e da anemia!

Meu ofício é entregar conselhos a domicílio.
Se estás livre do pecado de matar o boi, de roubar não estarás.
A solução é enganar o próximo. Um próximo bem enganado o livrará de pecados ignominiosos..

Como detesto conversa comprida,
Afirmo que vivas bem na selva em que estás
E tua recompensa estará garantida. Terás

Uma selva melhor no futuro
Um paraíso
Uma mansão na praia de Vermônia.

Uma pousada em Fernando de Noronha,
Uma vaga no Barcelona
E o que mais a tu vã idiossincrasia sonhar.



Madrugada




Madrugada, dúvidas, silêncio
E eu não sei o caminho a seguir

Não sei o que dizer, o que fazer, o que sonhar, o que pensar.
Não sei.
Olho e não vejo
Com a mansidão de cinza cobrindo a brasa que já não arde,
Que nada há
E a nenhum lugar chegarei.

É essa madrugada
Onde respiro a minha paz
Onde olho os seus olhos que me lembram de existir.

Olhos que eu amo
Que eu quero
Do seu corpo como uma brisa que alegra o meu dia.

Minha alma está quieta como uma palmeira em uma praia deserta
E caminho na face da pedra polida sem pressa
E caminho sem rumo e com as mãos vazias da sua.

Aonde irei, meu amor?
Aonde,
Sem você?

Só a canção
No mar, a melodia,
O céu sem nuvens, profundamente silencioso, cúmplice,

Que me faz lembrar
Que repetir eu posso
Que te quero

Como se eu pudesse
Na fragilidade da ágil labareda
Aprovar o seu gosto e viver

Só um sonho a mais
Só um sonho
Antes que você se vá e se feche a cortina do último ato.
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Barqueiro


Ficar para dizer
Que deste lado ou daquele outro,
Sem você,
A solidão.

Abro a porta
Para o tempo que não corre.
A cidade que não existe.

E espeto um pensamento,
Contemplo o seu sorriso,
Recuso o cinema

Recuso
Prefiro vagar pelos becos da minha alma,
Correr os dedos pelo perfume dos seus cabelos.

Voar junto com o seu vôo
No silêncio, na escuridão
Encontrar a sua mão.

A sua hora,
O seu dia,
Amplamente.

Do que eu não mereço
No meu repasto de sonhos abandonados,
Barqueiro invisível e solitário na grande noite do mundo.

Só um barqueiro,
Meu amor, só um barqueiro,
Que nas noites solitárias, o céu escuro, o fulgor das estrelas, pensa longamente em você.


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Eu Sei Que Vou Te Amar
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Poeta sem poesia


Poeta sem poesia
É um poeta
Em paz.

Com os óculos sobre o nariz
Ruminando o fio da madrugada,
A fuga da moça bonita ao entardecer.

É um poeta sem pressa
Seguindo o seu caminho
Sem guarda-chuva, sem ritual, sem relógio, sem cinzas.

Virão os amanhãs,
Virão as águias
E as estrelas.

Um pote de dor
Um pote de fel
Uma punhalada,

Esperarão pacientemente uma vez que nunca virá,
Esperarão pacientemente o poeta desmontar a última ilusão
E penetrar fundamente a singularidade da pedra.

Uns dirão que o poeta não passou
Outros dirão que o poeta não existiu
Outros dirão que o poeta foi uma pedra.

Mas era só um poeta dentro de uma pedra com uma pedra no peito
E em paz.

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Passagem


Você veio, meu amor,
Diante de mim e te vejo como se fosse um sonho
Que se desdobrasse em múltiplos sonhos, infinitos sonhos,
Amplos, imensos, tão vastos que sequer alguém ousou sonhar,
Muito menos viver ou testemunhar,
Reduzindo a pouca expressão do meu dia em um intocável deserto do Atacama.

Você veio, meu amor
Diante de mim como se fosse a face abrupta do céu,
Como se fosse tudo o que a Terra pode me dá em seu dia de maior magnanimidade,
Como se o sulcos amargos que deixei se recuperassem no vento mínimo da manhã,
Além dos meus rastros, da minha passagem súbita e quieta neste cantão de mistérios cósmicos.

Você é assim, meu amor,
Tem algo de mim e roubei o melhor de você.
Visitei a atmosfera sonora do seu dia,
Andei pelas areias quentes de sua praia
E viajei com seus pressentimentos até a instância suprema dos que ainda amam.

E antes que me despeça
E que tudo seja ontem
E todo este mundo de tanta matéria me seja uma vaga lembrança
E que eu seja uma gota de sombra nas poucas lembranças amigas,
Posso dizer, sem a mais leve dúvida e com a devida vênia dos tribunais amargos que com certeza me condenariam, posso dizer que te amei...

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Voe, meu amor
Voe,
Que o dia é seu e é seu o sonho

Você está longe e eu estou quieto
Nesta mesma rua do que não fui
Neste mesmo caminho de pó e dúvidas...

Talvez haja uma praia e uma esperança em algum lugar
E haja rios, pedras e boas notícias
E que eu encontre você ao dobrar a esquina

E que o seu sorriso nasça junto com o sol do meu dia
E que eu me levante
E faça um gol

Que a platéia emudeça
Que os sinos dobrem
Que haja loucos e felizes

Que eu acorde você
E você me acorde
E que vejamos juntos a paisagem, na mesma janela.

Talvez haja
Talvez não haja. Certamente não haverá.
Ainda assim levarei você comigo.

E roubarei você para mim
Na voz do meu sangue a sua voz
Escreverá no silêncio da minha alma uma canção para a vida inteira.


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Confesso que Menti


Há muitas palavras e estou cansado delas.
Literalmente soterrado.

Não quero um palco,
Nem platéia.
Todas as platéias são idiotas.

Sou um tédio com uma lesma na lembrança
E tenho feridas, muitos mortos e um cortejo de fracassos.

Um dia pedi para viver mais um pouco. Fui atendido, obviamente.
E foi apenas isso que pedi, que me eu me lembre, então nada me foi negado.

Deus não está em débito comigo.Meus inimigos estão mais embaixo: Ronaldinho,
Zico, Galvão Bueno, FHC, e mais alguns, que não me animo citá-los... Confesso que se fosse George W. Bush teria feito as mesmas guerras, e depois passaria o resto da vida triste e contido. Acho que a liberdade vale qualquer guerra.

Confesso que não lutaria em uma guerra. Nem enfrentaria o carnaval do Rio. Não nasci para matar, nem pára herói.
Sou um covarde consumado.

A moça escondida diz que eu devia aproveitar a vida. Mas eu aproveito a vida.
Quando lanceto o tumor e expulso o carnegão, eu aproveito a vida.
Até quando mijo, aproveito a vida...

Quando ela canta, eu aproveito a vida.

Ela.

É assim...


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