Café do Vento

Sexta-feira, Agosto 29, 2003



FRIO


Indubitavelmente
Associado.

A meia-noite descarrega o mistério
Pretensioso.

O frio enrosca o cobertor
Como uma flor
De gelo.

O sul tem a umidade
De batráquio
Na lagoa do quarto.

A língua e viscosidade
Molecular
Nitidamente invadindo
Ossos brancos e pasmos.

O frio pinga
Gota a gota
No olho oceanicamente aberto.


INÚTIL


Percebo a inutilidade
dos dedos desenhando o espanto na areia,
outros já desenharam o mesmo espanto
na mesma areia.
Percebo a inutilidade da tristeza
amontoada no caminho,
como se houvessem pés que se detivessem
ou mão que se recolhessem
palavras que não se dissessem.
Percebo a inutilidade na ponta da língua
produzindo a saliva
que se acumula, apenas sufoca, inunda
e não resolve o momento do gosto.
Há um só tempo
e muita palavra,
muita boca, muito chão
e medo e muitos que não ouvem
e não vêem.
Um só tempo e percebo a inutilidade
da ação
que não movimenta,
não acende
na palha seca as chamas
que arderiam na carne
e resolveria a inutilidade
e transporia o cerco.
O extremo é inútil
assim como o secreto sonho
de abolir
o campo onde não se morre
apenas se agoniza,
esfera de viver,
modelo de perceber o pincel
que pinta e mata
e alegra
e devora quilômetros de ar
apenas para viver.
Inútil a pálida manhã
e do peixe
e do rio
e da estrela que opera
o milagre,
presunção de viver.
Inútil a linha torta
que escreve
e se interrompe
e não comete
apenas começa
o sem morrer,
indefectível vontade de viver.
Como se ama
se a palma da mão
não alcança
a epiderme
a raiz que se fixa nas entranhas
na víscera,
inegociável como proposta,
mera inutilidade que risca com unha
de ferro,
a carne que não suporta
o rosto da inutilidade
de olhos vesgos
tontos,
como plantas que começarão
a nascer
e morrerão,
e quantos,
certezas do inútil,
apenas folhas e fatos
parcelas do nada,
ato inútil que não se completa,
na noite inútil
inutilmente amanhecendo.


Quinta-feira, Agosto 28, 2003



NO ESPELHO



O seco espelho
repousa o olhar rubro
e entediado.

O seco espelho
a manhã
se perfuma.

Chove
a espiral do sol
a curva do tempo,

A vida em sulcos
espalha-se
na pérgola do olho.

O olho é azul
distante
real.





UM DIA


A outra face imóvel,
atrás da lua
atrás do sonho.

A mente,
um fogo aceso,
uma fornalha.

Duzentas vezes,
impreterivelmente
iniciadas.

Um dia
e seu percurso,
o recurso.

Agora é tarde,
amanhã será cedo,
um dia, talvez.



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