Café do Vento
Carlos Drumond de Andrade

Segunda-feira, Setembro 15, 2003


Presença


A palavra que passa
Como uma ave insólita
Voando sem rumo.

Deus sabe o rumo
Conhece as rotas
Deus sabe

Do vento
De Maria Alice
De Mariana.

Da cunha do futuro
Deus olha
Os olhos de Luana

Os olhos de Deize
A luta de Ana Francisca Guimarães de Souza Dias Pessoa
E o chopp amargo de barnabé Paulo de Tarso

A crise do beduíno Al Helal
A festa na cobertura do empreendedor Jeová
E os últimos minutos do anônimo Guimarães

Na polpa do espelho
Deus medita
Sobre a dor infinita do texugo

Sobre a dor do apaixonado que perdeu a amada
Da amada olhando sozinha o horizonte
No entardecer, onde o casal velhinho envelhece de mãos dadas

Deus é abissal
Mas pode ser visualizado
Basta olhar

Dentro do nada
Na bolha de ar
Depois do vôo da última águia.

by Newton Lecarva


Carlos Drumond de Andrade

Domingo, Setembro 14, 2003


Na Poeira


No olho da poeira, a minha vida
Se dissolve...E é só mais uma vida
Nessa planície nua com a aspereza de pedra polida.

Vasculhei cada polegada
Viajei por dentro
Bebi meu próprio sangue
E não desfiz o novelo dos descaminhos.

Não, não estou perdido! Nem sei se presente estou,
Se o meu reflexo nessa voragem é real
Se a minha cabeça de nuvem não se desfará na lépida brisa,
Enquanto medito no coração da hora vazia,

Enquanto o gelo ilhado derrete-se no lago de uísque
Enquanto a Xuxa não vem,
Enquanto as rugas voejam como velhas borboletas
Enquanto não escuto o violão afinando o concerto da noite.

Mas, no entanto, é tudo mais e que voem as borboletas e soprem os furacões!!


Carlos Drumond de Andrade

Sexta-feira, Setembro 12, 2003


Tempo


Tenho o tempo,
mas o tempo também me tem.

Na fluidez dessa indecisão,
entre os muros oleosos,
observando a minha indiferença em branca fuga.

Que voem os abutres
e rondem as feras
nessa paisagem erma e silenciosa.

Não importa. Mesmo que o tempo se vá
e tudo em volta se desfaça,
e tudo se dissolva em orgasmo e larva,
restará um prato vazio, a saciar
minha boca vazia,
meu coração vazio.

by Newton Lecarva

Carlos Drumond de Andrade


Meio sem Caminho



Eu não sei,
nunca soube
e irei sem saber.

Talvez um dia
a voracidade do nada,
devolva-me a esperança.

Aí serei alguém,
ruminarei o meu ego
como um herói de verão

No mesmo passo de alguém que passa
vendo as vitrines das velhas feridas
na espuma desse meio-dia em meio à vida.

by Newton Lecarva


Carlos Drumond de Andrade

Quarta-feira, Setembro 03, 2003





Dia de chuva



Era só chuva,
Nada mais.

Essa cor do céu,
O sorriso dela tímido e triste.

Esse espreguiçar do vento úmido
E os que deixaram esse mundo e brilham no coração da minha memória

Como se o sangue fosse vinho e o vinho fosse sangue
E a luz riscasse o extrato das sombras estratificadas.

Como se sorriso triste e tímido dela fosse se diluindo...
Como se ela partisse...

Mas era só chuva,
Dia de chuva, nada mais.


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