Café do Vento


Carlos Drumond de Andrade

Terça-feira, Dezembro 23, 2003


Barqueiro


Ficar para dizer
Que deste lado ou daquele outro,
Sem você,
A solidão.

Abro a porta
Para o tempo que não corre.
A cidade que não existe.

E espeto um pensamento,
Contemplo o seu sorriso,
Recuso o cinema

Recuso
Prefiro vagar pelos becos da minha alma,
Correr os dedos pelo perfume dos seus cabelos.

Voar junto com o seu vôo
No silêncio, na escuridão
Encontrar a sua mão.

A sua hora,
O seu dia,
Amplamente.

Do que eu não mereço
No meu repasto de sonhos abandonados,
Barqueiro invisível e solitário na grande noite do mundo.

Só um barqueiro,
Meu amor, só um barqueiro,
Que nas noites solitárias, o céu escuro, o fulgor das estrelas, pensa longamente em você.



Carlos Drumond de Andrade

Quarta-feira, Dezembro 17, 2003

Carlos Drumond de Andrade

Terça-feira, Dezembro 16, 2003


Poeta sem poesia


Poeta sem poesia
É um poeta
Em paz.

Com os óculos sobre o nariz
Ruminando o fio da madrugada,
A fuga da moça bonita ao entardecer.

É um poeta sem pressa
Seguindo o seu caminho
Sem guarda-chuva, sem ritual, sem relógio, sem cinzas.

Virão os amanhãs,
Virão as águias
E as estrelas.

Um pote de dor
Um pote de fel
Uma punhalada,

Esperarão pacientemente uma vez que nunca virá,
Esperarão pacientemente o poeta desmontar a última ilusão
E penetrar fundamente a singularidade da pedra.

Uns dirão que o poeta não passou
Outros dirão que o poeta não existiu
Outros dirão que o poeta foi uma pedra.

Mas era só um poeta dentro de uma pedra com uma pedra no peito
E em paz.

Carlos Drumond de Andrade


Passagem


Você veio, meu amor,
Diante de mim e te vejo como se fosse um sonho
Que se desdobrasse em múltiplos sonhos, infinitos sonhos,
Amplos, imensos, tão vastos que sequer alguém ousou sonhar,
Muito menos viver ou testemunhar,
Reduzindo a pouca expressão do meu dia em um intocável deserto do Atacama.

Você veio, meu amor
Diante de mim como se fosse a face abrupta do céu,
Como se fosse tudo o que a Terra pode me dá em seu dia de maior magnanimidade,
Como se o sulcos amargos que deixei se recuperassem no vento mínimo da manhã,
Além dos meus rastros, da minha passagem súbita e quieta neste cantão de mistérios cósmicos.

Você é assim, meu amor,
Tem algo de mim e roubei o melhor de você.
Visitei a atmosfera sonora do seu dia,
Andei pelas areias quentes de sua praia
E viajei com seus pressentimentos até a instância suprema dos que ainda amam.

E antes que me despeça
E que tudo seja ontem
E todo este mundo de tanta matéria me seja uma vaga lembrança
E que eu seja uma gota de sombra nas poucas lembranças amigas,
Posso dizer, sem a mais leve dúvida e com a devida vênia dos tribunais amargos que com certeza me condenariam, posso dizer que te amei...

Carlos Drumond de Andrade


Voe, meu amor
Voe,
Que o dia é seu e é seu o sonho

Você está longe e eu estou quieto
Nesta mesma rua do que não fui
Neste mesmo caminho de pó e dúvidas...

Talvez haja uma praia e uma esperança em algum lugar
E haja rios, pedras e boas notícias
E que eu encontre você ao dobrar a esquina

E que o seu sorriso nasça junto com o sol do meu dia
E que eu me levante
E faça um gol

Que a platéia emudeça
Que os sinos dobrem
Que haja loucos e felizes

Que eu acorde você
E você me acorde
E que vejamos juntos a paisagem, na mesma janela.

Talvez haja
Talvez não haja. Certamente não haverá.
Ainda assim levarei você comigo.

E roubarei você para mim
Na voz do meu sangue a sua voz
Escreverá no silêncio da minha alma uma canção para a vida inteira.



Carlos Drumond de Andrade

Sexta-feira, Dezembro 05, 2003



Confesso que Menti


Há muitas palavras e estou cansado delas.
Literalmente soterrado.

Não quero um palco,
Nem platéia.
Todas as platéias são idiotas.

Sou um tédio com uma lesma na lembrança
E tenho feridas, muitos mortos e um cortejo de fracassos.

Um dia pedi para viver mais um pouco. Fui atendido, obviamente.
E foi apenas isso que pedi, que me eu me lembre, então nada me foi negado.

Deus não está em débito comigo.Meus inimigos estão mais embaixo: Ronaldinho,
Zico, Galvão Bueno, FHC, e mais alguns, que não me animo citá-los... Confesso que se fosse George W. Bush teria feito as mesmas guerras, e depois passaria o resto da vida triste e contido. Acho que a liberdade vale qualquer guerra.

Confesso que não lutaria em uma guerra. Nem enfrentaria o carnaval do Rio. Não nasci para matar, nem pára herói.
Sou um covarde consumado.

A moça escondida diz que eu devia aproveitar a vida. Mas eu aproveito a vida.
Quando lanceto o tumor e expulso o carnegão, eu aproveito a vida.
Até quando mijo, aproveito a vida...

Quando ela canta, eu aproveito a vida.

Ela.

É assim...


Carlos Drumond de Andrade



Hoje eu estou só
E só estarei
Ouvindo o estampido claro
Do dia que se parte.

Não tenho nada
Sequer uma porta
E um espelho
Ou o contorno de um sonho.

Tenho você,
E você está detida em sua vida,
Mas vem no ar e me invade
E nada nua e livre no meu sonho e me faz feliz

Carlos Drumond de Andrade


Chuva


Sabe, moça
Eu sou assim

Quieto e calado
Apenas escuto

Que falem os heróis, os guerreiros,
Os banqueiros, os videntes, os iconoclastas e as moças bonitas

Como você
Que é real

E me faz navegar na possibilidade do seu gosto,
Do medo de seus desejos, da amplitude dos seus sonhos,

Da sua ampla doçura, de sua inquietude rondando a madrugada silenciosa,
Onde você floresce

Na sua poesia
Na sua canção

Enquanto tempero o silêncio,
Enquanto colho o musgo do sonho

E vejo a chuva que cai na minha alma,
o céu cinzento, o cheiro gostoso de terra molhada, empapada. Logo a chuva passará.

Você não passará...

Carlos Drumond de Andrade





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