Café do Vento


Carlos Drumond de Andrade

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004


2003

Assim
Como um boi ou um camelo
Na estrada vazia.

A próxima parada é uma festa.
Terei maxixe no prato e capim no coração
E haverá o que chamam de música.

Dizem que é o final de 2003,
Mas temo que estarei em 2003 no dia seguinte,
E beberei a mesma sopa fria roubada de um mendigo descuidado.

É a sina do planeta.
Sem roubar e matar não se obtém uma boa refeição,
Nem vitamina B12.

Mas estamos liberados para comer os irracionais do planeta.
A natureza do pecado é complexa e vai muito além do cardápio humano.
Os vegetarianos não estarão livres do fogo do inferno como imaginam. Que cuidem da salvação da alma e da anemia!

Meu ofício é entregar conselhos a domicílio.
Se estás livre do pecado de matar o boi, de roubar não estarás.
A solução é enganar o próximo. Um próximo bem enganado o livrará de pecados ignominiosos..

Como detesto conversa comprida,
Afirmo que vivas bem na selva em que estás
E tua recompensa estará garantida. Terás

Uma selva melhor no futuro
Um paraíso
Uma mansão na praia de Vermônia.

Uma pousada em Fernando de Noronha,
Uma vaga no Barcelona
E o que mais a tu vã idiossincrasia sonhar.



Madrugada




Madrugada, dúvidas, silêncio
E eu não sei o caminho a seguir

Não sei o que dizer, o que fazer, o que sonhar, o que pensar.
Não sei.
Olho e não vejo
Com a mansidão de cinza cobrindo a brasa que já não arde,
Que nada há
E a nenhum lugar chegarei.

É essa madrugada
Onde respiro a minha paz
Onde olho os seus olhos que me lembram de existir.

Olhos que eu amo
Que eu quero
Do seu corpo como uma brisa que alegra o meu dia.

Minha alma está quieta como uma palmeira em uma praia deserta
E caminho na face da pedra polida sem pressa
E caminho sem rumo e com as mãos vazias da sua.

Aonde irei, meu amor?
Aonde,
Sem você?

Só a canção
No mar, a melodia,
O céu sem nuvens, profundamente silencioso, cúmplice,

Que me faz lembrar
Que repetir eu posso
Que te quero

Como se eu pudesse
Na fragilidade da ágil labareda
Aprovar o seu gosto e viver

Só um sonho a mais
Só um sonho
Antes que você se vá e se feche a cortina do último ato.


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