Café do Vento
Carlos Drumond de Andrade

Sábado, Abril 24, 2004


Senhorita


Ah você, meu amor
Que hoje passou silenciosa,
Não deixou palavras,
Marcando sua ausência.

Você, senhorita carinhosa,
Que pegou carona no vento,
E veio até aqui com um tão intenso carinho e amor
Tocando o ar em minha volta, invadindo o meu mundo,
Escorrendo no meu sangue como a seiva da própria vida.

Você, senhorita do amor,
Doce e quieto sonho que me faz sonhar,
Doce e quieta tempestade que me faz viver,
Que me faz querer ir além do lento caminhar da minha sombra sobre o dia.

Você, gentil senhorita,
Senhora de minha alma,
Senhora de todas as canções que me chegam ao ouvido,
Que me ensina amar, que me ensina viver
Que me ensinou olhar o céu...E a voar.

Você, senhorita minha
Senhora das minhas mão vazias
Senhora do meu amor...

Carlos Drumond de Andrade


Eu sonho



Eu sonho
Como
Bebo
Você.

É por você, meu amor
Tudo que faço.
Anoiteço,
Amanheço,
Caminho em volta do parque do Ingá
E faço planos, do alto,
Fitando a copa das árvores, que forma o tapete verdes das ruas.

Por você
Que me acordou hoje,
Assim tão suave, com tanta doçura,
Que não pude deixar de ser feliz.

Por você, meu amor,
Que está em mim e transformou tudo mais em circunstancial.
O frio não me atinge, a chuva não me molha, o relâmpago não me assusta,
O inimigo não me vence, a guerra não me importa, não acuso golpe, indiferente ao vento
E a tempestade.
No mar de minha paciência infinita,
Nesta minha alma quieta,
Só você, meu amor, consegue tocar,
Só você...


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