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Nada
O fim é o fim
Do fim.
Mas o fim também é ilusão
Dentro da ilusão e tudo é ilusão
Do que não é morte e a morte do que não é,
Do que não foi, não será sim nem não nem nada.
A asa do nada, sem conflito,
Acalma
Grande que não era grande,
Montanha que amanheceu no chão
Nesse deserto que escorre no meio da rua,
Escorre pela vida sem vida, areia e alma.
Eu passo.
Fecho os olhos aos olhos vazios do céu
E sou o espelho do meu sangue, a carne, uma esponja,
Água, lodo,lama
Energia do pó, eu passo,
Deixo meu vazio, minha sede, estas palavras...
Escrito
19:37
por Newton Lecarva E-mail
Sexta-feira, Agosto 27, 2004
Sozinho
Eu sigo sozinho o meu caminho,
Sozinho,
A minha estrada,
E levo a minha cabeça dantesca,
Um fiapo de alma lavado em nenhuma mágoa,
Sóbrio,
Mas no centro dessa vertigem,
Dessa festa, dessa guerra, da lágrima dos felizes e dos desesperados,
Desse dia
Ou de outra noite...
Não sei se isso me torna menor,
Menos significante,
Não sei se isso me conduzirá a algum lugar,
Aliás, eu nada sei.
Confesso a minha ignorância dos signos desse mundo vasto e complexo.
Sem soberba,
Comungo no meu tédio, sem náusea e dor,
Nesse rio vazio onde nenhuma água corre,
No chão queimado,
Nos escombros da última batalha
Sem vencidos,
Nem vencedores
Eu sigo sozinho nessa estrada,
Mas não solitário,
E vou além
Eu vou
Preciso.
A rota não está definida,
As sombras se alongam e se perdem
No caminho das dúvidas,
Das atordoadas lembranças,
Das perdas, pedras, pontos,
Do eterno faz de conta que veste a história,
O rumor do meu cotidiano,
O destino,
Das margens, da chuva, vastos relâmpagos, da força dos ventos
Que me curvam como um caniço,
Um pé de milho na beira da estrada,
Mas caminho,
Arrasto meus pés,
Esse sou eu,
Cruzando a tela vazia, sem platéia, sem o céu castanho do teu olhar,
Do límpido azul que se foi
Sozinho, apenas,
Mas te trazendo no meu coração, na alma, no amanhecer,
Nesse caminho que talvez seja mesmo o meu...
Escrito
00:57
por Newton Lecarva E-mail
Terça-feira, Agosto 24, 2004
Esse Mundo
Quieto sou eu
Eu sou o quieto
Nesse mundo intransponível.
É um mundo, certo?
É real,
Tem coisas, fatos, gente importante,
Cálculos, canções, navios, esperança, futebol,
Tudo vasto, intenso, cruel, poroso, duro, necessário,
E amores tantos
Perfeito, imperfeitos, que morrem, vivem, surpreendem...
É um mundo, certo,
Em movimento,
A roda que roda,
Que destrói, renova, refuga, refaz,
Assim a tua dor, infenso poeta, morrerá como o grão de café no moinho,
O amor, idem,
O resto é tua imagem se desfazendo no espelho,
A tua face tosca pingando no chão duro,
Dessa cidade, concreto que pulsa indiferente,
Aço.
Areia que vai,
Areia que volta...
Eu sei, certo?
Que viajei em silêncio
E dormi sem muitos sonhos
Que voei pouco
E caminhei muito mais,
Que eu não queria você assim,
Que fosse apenas você
Você
Que eu amo
E amo
O mundo
Esse mundo, certo?
Que me pesa sobre os ombros,
E escorre pelo suor,
Que me esconde pelos caminhos
E traz o meu amor em uma bandeja de ventos,
Na penumbra do dia,
No chão de lua dessa noite inquieta,
Ela, você
Canção que canta
Esse amor,
Fogo de átomos, nesse mundo, explodindo, certo?
Rio de larva,
Rio de cinzas,
Chuva ácida, agridoce,
Fumaça...
Coisas do mundo, esse mundo, o meu, certo?
Escrito
00:50
por Newton Lecarva E-mail
sem
sem
sem
sem
nada
só a lâmina que corta
o vento
o dia
o sol que seca
a noite que inflama
sem
a vida
o nosso
esse amor
sem
um caminho
o sol morrendo na praia,
o meu, o seu desejo,
despenhadeiro,
voando as águias,
os devaneios,
nesse tropel de sombras
o nosso tempo, meu amor
nossa canção
nosso céu castanho, luminoso,
resistindo,
resistimos,
ainda somos nós
ainda seremos nosso dia.,
ainda nosso amor......
Escrito
19:42
por Newton Lecarva E-mail
Quarta-feira, Agosto 18, 2004
música
Você
Tarde,
É assim
O céu azul,
Um resto de sol.
Você magoada,
O cinzel desajeitado das minhas palavras,
Esculpindo no silêncio, feriu
O céu iluminado dos teus olhos, tua alma,
O pedregulho dessas malfadas e insensíveis palavras.
Que eu te amo tanto, meu amor,
Quieto, sob o peso deste mundo,
nessa tarde amena, de céu azul,
E muito além dessa mera circunscrição de palavras trôpegas,
E muito além do que pode lavrar o suor da minha inspiração,
Além dessas canções que rolam no ar, e se arrancham no meu coração.
Tudo tão pouco, meu amor.
Mas, escassas as palavras, o silêncio me completa.
Esse silêncio que viaja no ar e invade a sua respiração,
Que incorpora, transfigura, enleva, transporta,
E me traz você,
Tão linda,
Tão suave,
Tão você...
Escrito
11:45
por Newton Lecarva E-mail
Sábado, Agosto 07, 2004
Destino
Fico
Na palma de minha
Alma
Sem dia
Sem
Branco mar sem ondas
Espatifaram as vitrines, explodiram a rua
Branco
Luz branca
O sangue branco
Na veia
Olho
Olham
O duro golpe trouxe areia e fumaça
Não morro
Deixo o meu coração chorar como um menino perdido em uma rua deserta
Deixo
A chuva
O gelo
O tédio
Na cruz alta do meu pensamento
Somo
Meus pés
Não quero mais
Nada
Deram-me o que me tiram
Deram
Tiram-me
O simples prazer de tirar
Eu fiquei
Sobra de mim
Sombra e farelo
O destino selado
Escrito
19:40
por Newton Lecarva E-mail
Sexta-feira, Agosto 06, 2004
O Poste
Nunca gostei de partir
Prefiro ficar
Permanecer
Poderia ter nascido um imenso, magro e desalentado poste,
Com uma cabeça de luz,
Iluminando uma ruazinha perdida
E estaria feliz
Ou menos triste
Estaria mais concreto
Cravado
Convicto,
Varando o frio, noite, madrugada, a solidão,
Irrigado pelo xixi dos cachorros,
Acossado pelos vôos dos insetos belicosos,
Das lustrosas baratas voadoras,
Pela chuva,
Pela lama,
Pelos ferozes carros,
Imóvel,
Indelével
Um inabalável poste...
Porque eu odeio partir,
Mudar
Sair
Deixar
Viajar
Invadir sonhos,
Desenhar com os dedos magros da ilusão
Pintar com os dedos magros da ilusão no pó dessa minha vida
E quieto,
Silenciosamente,
Perdê-la...
Odeio,
Simplesmente odeio,
Calorosamente odeio,
Mas sem ódio
Sem dor,
Pacificamente como um cordeiro na mesa dos reis,
Antes e depois,
Escorrendo pela chama da areia,
Pela chama do nada,
Pelos gritos órfãos,
Na viagem dos aflitos até ao amanhecer...
Mas o tempo vira a folha.
O dia passa.
Da minha janela nem um mar,
Nem uma gaivota no horizonte.
Sequer um céu,
Apenas a imagem teimosa
De uma rua perdida
Iluminada
Pelo solene e inabalável poste,
Armado no concreto,
Alheio,
Mas presente, sempre...
Escrito
19:37
por Newton Lecarva E-mail
Ela
Quero ou não quero
Esqueço ou não esqueço
Peço ou não peço
Morro ou não vivo
Ligo ou não ligo
Quero escrever um livro
Na minha cabeça vazia
Na minha alma ensopada
Na raiz de toda essa indecisão
Escrever sim
Para a glória, para a fama, sucesso.
Quem sabe remoço vinte anos, caso com ela, lua de mel em Andorra Velha,
Ela na minha cama, a paisagem na janela, musica no ar...
Quem sabe, nesse louco e distraído mundo?
Da minha alma carnal que a ama,
Do coração do meu espírito que a adora e espera,
Dessa imensa solidão,
Dessa engrenagem da dor moendo, remoendo,
O frio, a chuva, o meteoro do tempo, a ameaça de guerra, e ela demorando tanto...
Ela, o meu amor
Ela que amo
Ela que me deixa assim,
O espinho do silêncio atravessado na minha garganta,
Quieto,
Um caramujo espiando a chuva fria, que cai lá fora,
Dedos cruzados sustentando a precária paz,
Na noite,
Noite, meu amor...
Escrito
19:35
por Newton Lecarva E-mail
Ela Canta
Tudo talvez
Mas o talvez existe,
É uma possibilidade dentro da noite,
Mas que caminha no fio do dia,
E é talvez, o incerto
Um tempo que nunca foi,
Um tempo que da memória jamais se apagará,
Talvez
Nessa hora que agora é,
Num palco de extrema conjecturas,
Iluminado por uma lua imensa,
Ela canta, a vida
Ele vive, o sonho...
E o vento é cúmplice,
O espinho é cúmplice,
No caminho de terra e nuvens,
Das pedras que pulsam
Flores que irão brotar,
Ela canta, a vida
Ela, o sonho...
Escrito
23:47
por Newton Lecarva E-mail
Terça-feira, Agosto 03, 2004
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