Café do Vento



Tempo


Tenho o tempo,
mas o tempo também me tem.

Na fluidez dessa indecisão,
entre os muros oleosos,
observando a minha indiferença em branca fuga.

Que voem os abutres
e rondem as feras
nessa paisagem erma e silenciosa.

Não importa. Mesmo que o tempo se vá
e tudo em volta se desfaça,
e tudo se dissolva em orgasmo e larva,
restará um prato vazio, a saciar
minha boca vazia,
meu coração vazio.





Meu Silêncio


Vai, meu silêncio,
Fala por mim.
Diz o que penso, diz o que sinto,
Substitui a minha boca muda,
O meu coração calado,
E leva os meus pensamentos, minha alma,
O apelo de minhas mãos, o clarão dos meus sonhos.
Vai, meu silêncio, encontre-a, toque-a,
Cresça dentro do seu quarto, ocupe todas as metáforas do ar,
Respire junto com ela,
Mas não mexa em seus sonhos,
Não, não mexa em seus sonhos,
Apenas envolva-a com meus pensamentos, esconda-os dentro de sua alma.
Vai, meu silêncio, meu camarada, leve-me lá...Esquecer não, não permita....




Do meu mundo



Era o meu mundo
Um mundo pequeno,
Construído pelas minhas mãos vazias.
Não existia lá muita coisa,
A lua era um borrão que acendi no céu,
O sol não tinha hora para acordar,
Poucas plantas, árvores sem seiva,
Pouca ou quase nenhuma flor.
Era meu mundo, intocável, impermeável a realidade, a minha fuga
Ali ninguém entrava sem meu consentimento,
Nada era possível sem o selo da minha vontade.
Um dia ela apareceu.
Caminhou descalça pelo meu mundo, ágil e leve,
Depois sentou-se no chão, abriu um vasto e iluminado sorriso e achou tudo maravilhoso.
Dançou, cantou, achou bela uma pequena flor e a prendeu no cabelo.
Havia o seu perfume no ar, as pegadas na areia., o seu carinho, a doçura.
A sua presença fazia fluir a emoção e tudo se renovava
Ela se tornou uma certeza maior que o sol no meu mundo. Muito maior.
De repente, os meus versos abandonaram o vazio e voaram em sua direção.
Meu Deus, ela é minha, eu pensei.
Esqueci-me que havia um mundo lá fora.
Que havia um tempo e seu relógio inexorável.
Que havia os homens de preto, leis, convenções.
Esqueci-me.
E a amei com toda força da minha alma, de cada fibra da minha alma.
Não se ama um sonho assim.
Um homem feito não chora por um sonho.
Mas sei que nessa impermanência do meu dia,
Deste meu mundo que agora é dela,
no fim dessa viagem,
Eu conjugo a minha paz, a nossa paz, a nossa infinita paz
Que Deus a proteja, meu amor!!!




Fim



Vai assim
Como se o fim dos tempos
Fosse agora.

Os Sinos não repicam
Não há choro nem ranger de dentes
Gritos ou tumulto

Ninguém sabe
Só o meu peito vazio
Minha alma que ressoa como o túmulo de todos os mortos.

Ninguém sabe
Ninguém ler o meu olhar coagulado sobre a paisagem vazia
Nem repara no cão feroz, ensandecido, que não sabe se morde ou pula no precipício.

Não há dor nem revolta
Ninguém sangra lentamente sobre a grama da praça da Matriz
Ferido pelo cutelo silencioso do destino.

Minha alma também está em pleno silêncio,
Mas a batalha é surda e percorre todos os extremos permitidos a um solitário humano
E mesmo o imenso bombardeio é abafado pelo ruído da rua.

Um pequeno palco humano na trepidação infinita,
Sob a semi-escuridão
Resta o ator solitário mirando a platéia indiferente.

Minha consciência não sabe julgar-me,
Minha alma está vazia,
Não posso mais restaurar os muros derrubados.

Não posso mercadejar ilusão
Nem construir imensos castelos, meras abstrações da fantasia
Nem enganar o meu olho, acuar os nervos infeccionados.

Esperarei o fim dos tempos
De pé e pronto,
Depois, tudo consumado, restará a minha perplexidade em algum golfo cósmico.

Ou serei nada
De nada
Um risco quântico...


Sem


Vai, minha dor, com a força do teu aço,
De lenhador rachando o galho seco,
Racha minha alma...
Essa minha alma que rosna, alma de cão fiel
De cão sem dono, cão sem lua, de cão impassível,
Cruelmente impassível,
Furiosamente impassível.

Vai, minha dor infatigável,
Soberana muda a vasculhar os porões do meu destino,
Apresenta-me teu punhal,
Crava esse punhal
Até que os olhos de cão da minha alma desistam de sonhar,
Até que essa espectral fantasia morra sonora e fundamente
E morra completamente como morrem os vermes esquecidos no fundo da terra,
Essa mesma terra que implacavelmente recolherá todo este imensurável drama humano.

Vai, minha dor, algoz e companheira,
Nessa noite, com seus silêncios de tantos pântanos, onde você, minha deliciosa ninfa, corre nua, no fundo acuado do meu olho, voando por essas paredes áridas, você que roubaram de mim tão violentamente, nessa ingratidão cósmica, implacável injustiça estabelecida contra a serenidade de minha alma.


Testamento

Do que fui só
Essa sombra espectral
Pelo caminho.

Uma nesga de lua,
Um pingo de sol
Na acanhada e poeirenta estrada.

Sem meu violão,
Sem minha voz que pudesse cantar,
Acompanhando o eco da festa que não fui,

Não voei,
Não massageei as costas da moça dourada,
Não pulei de pára-quedas em uma queda livre sobre o silencioso e infinito azul

Não fui além,
Não roubei, não matei, não conspurquei,
Não patinei no gelo, não fui a ópera, ao Maracanã, nem a Paris

Não prestei atenção no vizinho, nem nos inimigos
Não gastei bom dia à toa,
Nem aprendi fazer um feijão decente e um arroz sem queimar.

Não entrarei nos anais da história,
Não serei lembrado
Não serei

Mas saiba, meu amor, que fui o melhor ponta-direita da rua Antenor Navarro,
Um exímio caçador de lagartixas
E enfrentei em briga de rua o valente Nego Lambu e o abominável Castanha...

Parece pouco, meu amor
Mas não importa. O que importa é que estive aqui, no planeta azul
E conheci você...

Mesmo que de passagem
De leve,
Você esteve no meu caminho...


Você, onde está?


Está claro e escuro
Mas não é nada,
Não é dia,
Não é noite,
Não é tempo,
Só o bocejo cruel,
Cósmico e cruel,
Ou só cósmico

Devoro a minha língua
Devoro-a
Nesta ingente fricção do amor
Fricção de corpos,
Fricção de nervos,
Esse eterno cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar

Onde está você, eu pergunto
Onde está?
Por que nunca veio? Por que nunca morou na minha rua?
Por que não esteve ao meu lado enquanto eu navegava e o mar não estava calmo?
Que fiz eu a você? E quando?
E eu procuro. Nem mais sei como é a sua face.
Existe uma explicação de por que você nunca apareceu na minha vida?
Onde está você?
Onde?
Devo cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar e cavar
Ou devo voar sem asas
Para encontrá-la??

Não é essa introspecção,
Não é essa canção que não toca,
Esse dia que não chega,
Nem essas araras invisíveis rodando o meu humor,
Não é nada,
É que chegou seu tempo de chegar até aqui
Ou de uma explicação
De um indício mais veemente que você existe.
Você sabe que existe tempo pra tudo...

Talvez você não exista,
Talvez você ainda nascerá
Mas esse talvez não ajuda a cavar cavar cavar cavar cavar
Quem cava sou eu
E isso reduz meus horizontes e meu tempo paras as festas.
Porque eu sei que não vou encontrá-la numa festa
Não gostamos de festas.
Mas de uma coisa tenho certeza
E essa coisa que tenho certeza vou guardar para mim.
Não quero ser injusto, meu amor.
Eu lhe aguardarei e que morra o tempo e sua implacável contagem.
Sabe, meu amor...Não, a loira do 132 não é, ela é casada...Boa ela é, mas não é ela....



Mãos Feridas


Deixo à minha alma essa batalha racional
Aqui, a minha poesia

Poesia das minhas mãos feridas
Do meu vôo interrompido pelo cutelo do destino,
Do meu amor que morrerá, um tão intenso e tão curto incêndio, mas que deixará tanta cinza,
E já há tanta cinza...

Eu não sei,
Não, eu não sei
Outros sabem. Os poetas de cinzéis na mão, que esculpem na pedra os seus poemas,
Pedras vivas, esses sabem...
Eu não, eu cinzelo minha poesia nesse coágulo de nada,
Eu invento o vazio e deixo-o morrer vazio, perplexo, triste,
E não vou mais além,
Não fui, ou melhor, fui menos que o vento que agita os cabelos da bela troiana,
Esse a toca,
Outros, esculpem
Eu não. Eu passo como o lento caracol,
Que além de tudo, não sabe o caminho.

Foi com a rudeza das minhas mãos que toquei a flor.
Flor que não era minha. Jardim que não é meu. Jardineiro que não sou eu,
E minhas rudes mãos de pronto quiseram destruir o mundo da flor.
Destruir o jardineiro. Destruir o poeta de cinzel na mão. As minhas mãos,
Mãos que são minhas, mãos feridas, mas feridas com meu próprio espinho,
Meu próprio ácido, mãos da minha insensatez...

Os rios ainda sangram sua água límpida
Eu também sangrarei uma alma límpida
E minhas mãos se recuperarão da insensatez do seu gesto.

A flor, o jardim, o jardineiro poeta com cinzel na mão, fecham esse poema,
Mas se abrem para a vida, para o mundo, muito além dos muros e das manhãs...



Seco


Pois é
Consumado está.

A tristeza tem os pés frios e caminha devagar na minha alma,
Mas eu tenho uma paciência infinita...

Estou melhor hoje que ontem. A dureza da jornada tem me ensinado.
Mas ás vezes, fraquejo, ás vezes me perco, acuso o golpe, beijo a lona, afundo...

E não me valho mais do que desse fio de lucidez que me conduz.
É tudo que tenho e é por esse minguado fio de lucidez que me bato, guerreio...

O tempo tem me varrido as palavras. A poesia seca. E tudo isso é bem vindo.
Quero me queimar sob o sol da minha minguada lucidez...


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