Café do Vento



Não sou eu


No leite desse ar,
Essa ambivalëncia toda
De quem é e não é e não será
E será história de ventos
Ponteando o nada
Dizendo eu não sou
Não, eu não sou

Eu não devia começar
Mas começo
Amanheço com as mãos o dia sofrido
Ergo a voz, calo o grito,
Meus olhos fuzilam a luz
Meu queixo imerso na areia
Na face o que sobrou
O que arranhou a voz
Deixou o cinza na alma
As minhas pegadas úmidas e soberanas no caminho

Não, eu não vou chorar
Não é meu esse grito
Não é minha essa dor
Que transforma o ar
Bolha de fogo e fel
Que se levanta na barra da manhã,
Desenhando a comiseração,
Nessa facilidade de lágrimas enganadoras
No molho da chuva fria
A dizer, eu digo não, não sou eu
E só tenho essa voz engasgada
Que pinga da terra
E vai mais além

Esse não sou eu
No tecido frio e escuro desse mundo
O galope da dor invadindo os quintais
Nesse indiferença oleosa quase humana
Quem se importa com o que seja
O que sou
A tessitura de minha pele
Ou com a orelha do meu pé
Então que essa festa festeje o seu arroz
Que os dromedários durmam de casacas.
Que haja uma casa, uma cidade, um céu privado
Com uma lua e um sol pintados na janela
Onde as vezes chove
Às vezes neva, névoa

Não, não sou eu
Nunca fui eu
Com certeza era o vento,
A palmeira se agitando na escuridão,
Decerto um reflexo
Que cruzou a monotonia do dia
E não era eu
Que eu sou mais canino
Os pés rosnando na fuligem do chão de terra
E a alma vadiando no coração do céu
Absolutamente livre
Sem as amarras do ventos
Sem o peso das sombras
Sem os olhos escuros e doloridos mirando a indirença do espelho...

E esse sou eu
Cão no chão
Cão no sonho
Cão sempre...


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