Nasci em Café do Vento. Pois é, Café do Vento. Quem viaja entre Campina e João Pessoa, na Paraíba, conhece a mais tradicional parada de ônibus e carros, uma mercearia de borrada e esmaecida pintura amarela, onde se ler acima de uma das portas, em apagadas letras azuis o nome Café do Vento. Antes do asfalto, quando os tropeiros da Borborema, conduzindo suas tropas de burro, por ali passavam, já era a parada dos viajantes. Servia-se café, bolho de milho, queijo de coalho e ventava muito... Todos sabem disso! O difícil mesmo era convencer as pessoas que por trás daquela pequena mercearia, às margens da BR-201, estendia-se uma cidade, um município com quase quarenta mil habitantes. Por isso, não perdia oportunidades de ressaltar, mencionando minha cidade, claramente, com todas as letras e inflexões, quando a ocasião permitia, como naquela ensolarada manhã de setembro:
-Eu nasci em Café do Vento! -- Disse ao professor Bertoldo, narigudo e arrogante, no Colégio Estadual da Prata, em Campina.
-Nasceu na parada de ônibus, garoto?-- descontada a impaciência de sua voz, essa era uma ironia que estava habituado a ouvir.
-Café do Vento é uma cidade, professor!!--retruquei com veemência.
-É uma parada de ônibus, menino!! Você me respeite! Não venha com gozação.
Preferi me calar. O professor Bertoldo era um idiota e a nossa contenda encerrou-se três dias depois quando ele foi assassinado, um tiro seco e certeiro. Um crime mal esclarecido, um emaranhado de versões.
Lembro que não resisti. Sepultado o professor, na primeira aula após o luto, subi na escrivaninha e anunciei, em alto e bom som, para todos:
-Café do Vento é uma cidade!!!!!
A gargalhada foi geral. Para mim sempre foi um mistério o humor negro do ser humano. Um mistério, mas sempre tive em mente ser também algo inominavelmente sujo. Ainda há muita ferrugem na alma humana, filosofava sempre uma amigo dessa época, Floriano, que sumiu no mar ainda na juventude.
Eu já havia esquecido o professor Bertoldo, quando um outro professor resolveu implicar com a existência do município de Café do Vento. O tal professor que era ainda jovem, lembrava vagamente um indiano, mas com os olhos escuros tão vivos e sarcásticos que me causavam arrepios, batizou-me de Café. Nessa época, eu estava com dez anos e comecei a ensaiar a minha indiferença como resposta, o meu esgar de nojo, e tomei a resolução de abandonar definitivamente a causa de cidade, deixe-a como parada de ônibus mesmo! Que me importa a opinião alheia, ou a asnice alheia??? Que se danem! Eu era só um menino e, nessa época, Campina era uma metrópole, difícil, indigesta, e me era neceessário um pouco mais que apenas sobreviver. Viver sempre fez parte dos meus planos...
Lá eu morava na casa do meu avô e um dia, sem que explicações me fossem dadas, interromperam o meu exílio campinense e voltei a estudar na minha cidade. Os dois anos passados na áspera cidade serrana, de noites frias, morando com os velhos não tinham sido realmente satisfatórios. E foi com a alma embandeirada que voltei ao meu Jardim do Éden, onde não corriam rios de leite e mel, mas corriam as lagartixas ao sol, prontas para serem caçadas, e o pequeno e barrento rio Poró, que em alguns trechos era largo e profundo o suficiente para alguns mergulhos.
De volta a minha pacata cidadezinha, eu reconquistei a liberdade de andar por onde bem quisesse e entendesse, de correr pelas ruas ensolaradas e planas, de me enfiar pelos sítios e arredores, caçando, roubando goiaba e pitombas, de espiar as lavadeiras de roupas no rio Poró, as coxas nuas, ou simplesmente sentar na Pedra do Rei, uma pedra enorme com inscrições rupestres e em seu topo, esculpida muito toscamente sabe-se lá por quem, uma poltrona, onde se podia sentar e observar os pássaros e os longos vôos dos urubus, rodopiando em um céu de azul brilhante...Depois havia as noites e as noites de Café do Vento eram uma festa!
by Newton lecarva